Negro é o nome do acaso

por Alexandre Gnipper
[@alexandregnipper]

Como desatar mil nós de uma corrente de ferro? Uma tarefa hercúlea às vezes
pode exigir meios pouco convencionais. Com uma forma poética performativa o
espetáculo é o expurgo do artista atormentado por memórias que não sabe
muito bem como desfazê-las, se utilizando do palco como plataforma de
elaboração subjetiva, estetizando para transcender, mas talvez também para
se fazer compreender, mesmo que por caminhos misteriosos.

O espetáculo parte da consciência de que o extraordinário não é suportado por
plataformas narrativas convencionais. Fazendo com o que o artista tenha que
inventar, a partir de seu próprio ser no mundo, mas também dos movimentos e
descaminhos de sua vida psíquica, uma forma personalizada que suporte as
especificidades de sua trajetória narrativa.

Ali se vê uma entrega, mas também um esmero pela artesania teatral. A
relação com objetos pontuais é singela, porém determinante. As correntes que
o seduzem, o atabaque que serve para se esconder. Existe uma dramaturgia
da relação com os objetos que se efetua na chave da subversão, do
extravasamento. No estado de surto poético objetos banais transcendem sua
funcionalidade corriqueira, assim como uma alma fatigada pela dor, que clama
por novas formas de se utilizar o próprio corpo.