Naufrágio de si mesmo em um teorema para dois corpos

por Douglas Ricci
[@blogaus]


A partir do texto “O arquiteto e o imperador da Assíria”, de Fernando Arrabal, o
experimento “Naufrágio de si mesmo em um teorema para dois corpos”
investiga as relações de poder entre opressor e oprimido que a civilização
humana estabelece a partir de sua dominação da natureza. Esse jogo é
estabelecido na encenação com a presença de dois corpos distintos, que
apesar da sugestão animalesca e agênero do figurino, podem ser lidos um
como masculino e um como feminino, que se tensionam na relação que
estabelecem ao longo da narrativa cênica. O corpo masculino aparentemente
civilizado domina e oprime o corpo feminino submisso e selvagem. 

Essa leitura pode ser feita, principalmente, pela interessante e aplicada
expressão corporal dos atores, que circulam e fazem suas evoluções corporais
por entre as cadeiras do público, que são dispostas como parte do espaço
cênico, colocando-o em situação de testemunha do que acontece ali, na nossa
frente.

O experimento apresenta interessantes rascunhos no que diz respeito ao
figurino e caracterização dos corpos, abrindo reflexão para um borramento
entre os gêneros e o que selvagem e o civilizado e também apresenta uma
promissora pesquisa corporal a partir da investigação do texto de Arrabal. No
entanto, o texto que é dito por esses corpos ao longo dessa dança tende a se
perder e a não criar imagens para o espectador, e assim, este pode ser um
ponto a ser problematizado pela encenação. É necessário este texto para o
discurso que se busca? E se a cena construísse essa narrativa apenas com
imagens? Ou, ainda, se essas palavras fossem apenas sons, como um
gramelô? Deixo, aqui, tais provocações para o grupo.