por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]
Antonin Artaud é um daqueles artistas que são evocados, mas poucos se dedicam de fato a olhar para seu trabalho com rigor. É comum que o chamem de psicótico, que o associem a gritos, que persigam a ideia de que sua loucura foi o que o fez criativo. Ledo engano. Não se cria durante o surto, é a tentativa de fazer borda ao sofrimento que leva artistas-loucos a serem geniais. É sobre isso que fala Jacques Lacan sobre James Joyce, um psicótico que não surtava pois estava sempre em processo de criação. E também o caso de Van Gogh e Arthur Bispo do Rosário.
Em “Meu corpo em mil pedaços”, a companhia Teatro da Neblina apresenta Artaud em sua complexidade, um artista genial e coerente, com uma obra gigantesca cuja relevância e contundência não pode ser reduzida a seus desajustes sociais ou às internações psiquiátricas. É um espetáculo que não querem apenas revisitar Artaud, mas convocá-lo, um morto inquieto que renasce para dividir o palco fosse a única maneira de produzir verdade, um teatro que pulsa no limite entre a lucidez cortante e o delírio como ato político de resistência.
O percurso artaudiano surge menos como narrativa do que como fricção contínua. Loucura, exclusão e êxtase não aparecem como momentos organizados, mas como tensões encarnadas nos corpos dos intérpretes, sempre à beira da implosão. Os espaços — manicômios, desertos, teatros — se transformam com a mesma velocidade febril de um pensamento que não aceita clausura. A cena respira em convulsões, numa arquitetura que se monta e se desmancha, como se estivesse tentando acompanhar a falha elétrica que foi a vida de Artaud.
Dentro dessa vibração, a presença de Jonnata Doll e seu punk rock ao vivo é mais que trilha: é corpo sonoro, é lâmina. Sua música não acompanha a cena, atravessa. Fere. Faz vibrar o que, em outro tipo de espetáculo, seria apenas intenção. Aqui, tudo é risco — e é desse risco que o trabalho extrai sua força.
No Espaço dos Satyros, “Meu Corpo em Mil Pedaços” não oferece ordem nem consolo. É um rito feito de restos — restos de Artaud, restos de um processo, restos de mundos que ruíram. E justamente por isso vibra com uma urgência rara de um corpo sem órgãos.
