por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
O espetáculo “Me Ame Como Uma Sexta-Feira no Centro”, com direção e
coreografia de Hélio Lima e Pretah Thaís, e provocações cênicas de Wolly
Khendara, traz à tona uma leitura sensível e potente sobre os afetos urbanos,
desencontros e reconexões – abraçados pela genial trilha sonora de Liniker,
vencedora do Grammy Latino do ano. As músicas não são apenas pano de
fundo, mas parte ativa da dramaturgia: cada tema embala uma cena, um
encontro, uma nostalgia, um deslize ou uma reconciliação emocional,
traduzindo em gestos aquilo que muitas vezes é dito em sussurros ou noites
em claro.
O elenco talentosíssimo, diverso e bastante jovem, transforma o espetáculo em
uma obra potente por sua capacidade de traduzir em dança a complexidade do
afeto contemporâneo — especialmente em contextos urbanos e queer. A
escolha de Liniker como voz-principal com certeza não é apenas estética, mas
simbólica: ela representa autenticidade, resistência e uma poesia emocional.
Além disso, a coreografia de Hélio Lima é marcada por sutileza e força ao
mesmo tempo, propondo uma espécie de “rito poético” que convida o público a
revisitar suas próprias sextas-feiras metaforicamente — aquelas que carregam
desejo, erro, perdão e renovação.
Entre “Veludo Marrom”, “Zero”, “Tudo”, “Sem nome, mas com endereço”, entre
outras canções, qualquer habitante da cidade e fã da cantora fica emocionado
com a performance, cheia de jogos cênicos, sensual, irrigada com a beleza do
figurino e dos movimentos. Interessante notar que o público participa da cena
final, trazendo, mais uma vez, a ideia de que a construção do espetáculo é
coletiva, orgânica e situacional.
Em suma, “Me ame como se fosse uma sexta-feira no centro” aparece como
uma celebração da vulnerabilidade e da conexão, um espetáculo que fala da
cidade e dos corpos que nele se encontram, onde dançarinos e espectadores
se reconhecem no pulso noturno de um afeto/amor que insiste em voltar,
novamente, toda semana. Precioso, importante, especial.
