por Mariana Ferraz
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Parte da programação DramaMix, o espetáculo “Era uma vez… uma outra história no Carandiru” reivindica, por meio da dramaturgia de Jonatan Cabret e da direção de Clóvis Elias, que a feitura do teatro está sempre, impreterível e inevitavelmente, imiscuída com o exercício da vida em si.
Como uma espécie de inclusão nos Autos da História, os atores Bel Baeza e Fabrizzio SanVare postulam ao público a seguinte premissa: que, no ano de 2022, o grupo se preparava para estrear uma peça intitulada “Era uma vez… no Carandiru”, quando foi abordado, na porta do teatro, por um policial que esteve presente na famigerada missão Monte Cáucaso – esta que, condicionou os episódios que resultaram no massacre que se tornou símbolo da maior operação de violência prisional no Brasil. A partir desta intervenção, que instigou no grupo uma sorte de reavaliação do trabalho por estrear, é que surge o espetáculo apresentado no contexto do 26º Festival Satyrianas, pleiteando um misto de reparação histórica e reescritura das narrativas hegemônicas.
Em “Era uma vez… uma outra história no Carandiru”, o espectador conhece a história do encarcerado Jorge, de 48 anos, encaminhado ao pavilhão 9 daquela Casa de Detenção por roubo à mão armada; no contexto de uma entrevista concedida a uma repórter que, no fatídico 02 de outubro de 1992, visitava o Carandiru para tomar depoimento de outros homens em situação prisional.
Com um dispositivo narrativo que é, de antemão, tão comovente quanto intrigante, entendo que a execução de “Era uma vez…” resultou um tanto aquém quanto ao que se pretende: em primeiro lugar, se bem a dupla Baeza e SanVare sustenta uma dramaturgia emotiva e bastante dura, tem-se que o texto chega um tanto distorcido ao espectador em determinados momentos, sobretudo pela aceleração demasiada com que é proferido, especialmente nos momentos em que os dois atores se dirigem ao público para apresentar determinadas especificidades da trama. Aliás, considera-se que toda a temporalidade do espetáculo se manifesta de modo um tanto ruidoso, tendo em vista a desproporcionalidade existente entre a gravidade da narrativa apresentada e o tempo oferecido ao público para assimilá-la, decantá-la, imiscuir-se no enredo que, tão competentemente, os atores Baeza e SanVare levam à cena.
Destaco, de modo louvável e muito positivo, as relações entre cenário e iluminação. Quanto ao primeiro, sublinho a delicadeza e a assertividade quanto à escolha de objetos cênicos – o altar improvisado, em particular em que constam uma estátua de Nossa Senhora Aparecida e uma vela queimada até a metade, é de particular beleza e reconhecimento –, que suscitou o estabelecimento de uma construção visual bastante precisa e direta da cela que alojava Jorge. Quanto ao segundo aspecto, o da iluminação, aponto para a minúcia e o cuidado com que logra construir uma atmosfera interessantíssima para o desenrolar da peça, ditando certas quebras de linguagem e intensificando o alcance de determinados estados de contato.
Da experiência de “Era uma vez… uma outra história no Carandiru” no 26º Festival Satyrianas, fica a sensação de se estar diante de um trabalho com um potencial gigantesco de execução, que parte de uma temática urgente e fundamental, mas que ainda performa um estágio embrionário da concepção – algo absolutamente plausível, evidentemente, em se tratando de um material apresentado na categoria DramaMix. Espera-se, com entusiasmo e desejo genuíno, que o grupo consiga desempenhar, em labor e compromisso, um processo de montagem que faça jus à agudeza do postulado cênico apresentado – dentre outras razões, porque nota-se a entrega apaixonada do elenco ao texto; e porque considera-se imprescindível que histórias como a de Jorge, metonímia para a de tantos outros, sejam trazidas à luz por meio do teatro como vigoroso e insubstituível instrumento pedagógico.
