por Paulo Maeda
[@paulomaeda1]
“Dona Júlia” nos transporta para um boteco, monocromático e art nouveau. Ali,
um inquieto funcionário (Daniel Camillo) organiza o espaço de maneira
sistemática e sonora, cria musicalidades a partir dos objetos em cena, dita o
ritmo e desperta nossa curiosidade quanto à temática do que vem pela frente.
Uma de suas ferramentas será um pedal de looper, dele criará melodias e tons
no decorrer do trabalho da Cia. São Genésio. A primeira vez que utiliza o
instrumento marca a entrada de Dona Júlia, interpretada por Rita Oliveira.
Dona Júlia entra no jogo, na batida proposta, em cena. No momento que sua
voz é proferida, é dada a largada, ela não sairá mais até o fim. Daqui em diante
uma jornada com toques de absurdidade e surrealismo toma o espaço. As
contradições da personagem ganham camadas a cada movimento, ora pontua
do quanto a voz feminina foi calada no decorrer da história, ora trata de forma
patronal e violenta o proletário. Entre as contradições e conflitos de uma mulher
burguesa e o silêncio do garçom a peça propõe choques entre essas
realidades.
Impossível não lembrar da peça de Ibsen, “Senhorita Júlia”, e traçar esse
paralelo – onde estava a mulher burguesa no final do século XIX, onde ela está
hoje, no século XXI. Diante de tantas reflexões propostas ainda sobram
algumas curiosidades, por mais sonoridades que poderiam nascer do cenário e
em volumes e camadas diferentes, por onde as contradições entre a
desigualdade social e a desigualdade de gênero podem caminhar, por onde os
níveis de absurdidade podem alcançar um lugar ainda mais provocativo.
Caminhos abertos à Cia. São Genésio, que vem de Campinas e tem um
trabalho de pesquisa de anos.
