por Marcio Tito
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Mesmo colocando a cena de modo objetivo e prático, priorizando valores técnicos e de comunicação acima da poética cênica, o que surge é um trabalho refinado, cujo sentimento geral reafirma a elegância e a contundência da forma como Marcelo Várzea escreve, elegendo identidades e experiências para libertar de cada atuador ou atuadora o radical de uma experiência não somente social, mas também capaz de ritualizar processos interiores (muitas vezes inomináveis ou ainda em carne viva).
Com importante percepção acerca do que seriam o sexo, o desejo, os corpos e as disputas ao redor do corpo da mulher e de quem performa o feminino na sociedade contemporânea, o diretor encontrou também um modo de equalizar gestos e vozes, formatando um padrão ágil e bastante consciente da complexidade das falas e da função de cada movimento em cena.
“Autodrama” funciona como referência e guia para uma experiência nitidamente possível a partir do material apresentado e lança luz ao expediente de atrizes cujas manifestações pareceram capazes de renovar o fôlego das artes e do teatro, sobretudo por apresentarem intenso prazer perante a plateia.
Sem nenhuma grande descoberta, mas emprestando sólidas e significativas camadas a modelos cênicos reconhecíveis, foi um dos mais afinados, carismáticos e engajados espetáculos do festival.
