por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
Essa trama emocionante, escrita e dirigida por Gustavo Parreira, nos convida a ouvir a história de um encontro potente entre Amélia, mãe viúva que vive sozinha em uma cidade do interior, e sua filha Beatriz, após anos de afastamento. O texto se desenrola num momento íntimo de reconciliação, quando Beatriz retorna à casa materna para um convite especial: seu casamento com um amor de infância, cuja relação familiar, no entanto, carrega tensões veladas. O reencontro revela feridas antigas, segredos não ditos e a possibilidade de reconstruir os laços.
Tanto os objetos cênicos, quanto a iluminação e caracterização das personagens trazem um sentimento de “casa” ao público. A direção de Parreira equilibra delicadeza e força dramática: a tensa relação de Beatriz e de sua mãe com o pai abusivo e machista acaba se dissolvendo e se ressignificando. As atrizes, Mari García como Amélia e Lu Astolfo como Beatriz, entregam performances comoventes, cheias de contornos emocionais, além de serem (ao final, isso é revelado) mãe e filha na vida real. A espacialidade cênica favorece a proximidade física e simbólica entre mãe e filha, reforçando a ideia de um território afetivo que precisa ser redescoberto.
A figura da família tradicional brasileira, cristã e hetero-cis normativa é conhecida em quase todos os lares. De forma crítica, o texto cutuca a ferida social, escancarando a violência doméstica, o apagamento feminino e a tensão psicológica criada pela hierarquia masculina. “Amélia – Flor de Mulher” também se destaca pela sensibilidade com que aborda questões de pertencimento, culpa e perdão. A peça mostra a complexidade de relações familiares marcadas pela ausência e pelo tempo e a dramaturgia de Parreira não oferece respostas prontas, mas abre espaço para a reflexão sobre como reconstruir algo que foi quebrado sem idealizar o passado.
Ao som de Milton Nascimento cantando “Beatriz”, o público se desfaz em lágrimas. Assim, mãe e filha vão juntas para São Paulo e a plateia pede cenas do próximo capítulo em uma nova apresentação. Às vezes, retornar é um ato de coragem maior do que partir, e a “Amélia, mulher de verdade” existe com a condição de ser para si e por si.
