A autoria das coisas

por Douglas Ricci
[@blogaus]

Nos últimos anos, devido a demandas profissionais e também por um interesse criativo, tenho exercitado mais a escrita – seja em forma de reflexão crítica, acadêmica ou ficcional. Tem chamado muito minha atenção a forma como essa ação acontece, a escolha das palavras e seu engajamento em frases, as imagens que elas evocam, e no caso da escrita ficcional, a vontade dos personagens que muitas vezes tomam caminhos inesperados, fazem ações e elaboram reflexões que eu como autor não planejei e que se tornam imperativas na trama.

No texto “A autoria das coisas”, de Franz Keppler, temos um autor às voltas com seus personagens enquanto escreve uma peça. Sua ideia é a de contar uma história, onde três desses personagens não se conhecem, mas se conectam pelo fato de conhecerem ao quarto, uma mulher grávida, que é o elo entre eles e o eixo em torno do qual a dramaturgia vai se construindo. Os cinco, o autor e seus personagens, nos proporcionam, através de seus diálogos e interações, interessantes reflexões sobre os tempos que correm, bem como sobre os nossos vazios, desejos, frustrações e desencantos.

Na leitura apresentada durante o Festival Satyrianas, podemos vislumbrar a possibilidade de uma dinâmica e deliciosa montagem: os atores parecem se divertir descobrindo as nuances do texto recheado de ironias, e a metáfora que ele traz, implicando o autor como personagem da trama, é a cereja do bolo dessa reflexão sobre nosso tempo. Já estou ansioso para ver o encaminhamento deste trabalho.