Onde Mora a Memória

Por Janjardi

Existe refúgio do sentir automatizado e autoritário? Há respiro vivo em minha memória? “Onde Mora a Memória” é a primeira apresentação feita pelo grupo “Tripas Neurais”, onde se propõe a investigar através da memória corporal como o corpo ainda pode brincar mesmo sendo constantemente reprimido em seu cotidiano. 

A obra se inicia com o som de um metrônomo que logo guia os dançarinos para dentro de cena, marchas dão início a movimentos repetitivos em composição que só recebem certa leveza em breves momentos abruptos, mas ainda assim alienados e de muito controle. Eles vestem roupas sociais que trazem esse imaginário do adulto e nos faz ver como a própria roupa molda um corpo a se portar. 

Em dado momento, os dançarinos usam jornais e brincam com uma partitura corporal que induz o gesto da leitura e seu ressoar pelo conteúdo lido.

Chegando em um lugar de exaustão, vemos a energia crescer e trazer o lugar de expressões faciais fortes, libertação dos movimentos que faz chegar no rasgar das roupas.

O despir da profissionalidade dá lugar a possibilidade de se viver, pulsar e sentir com mais intensidade e diversão. Aquilo que antes eram os gestos brutos, agora se revertem em energia e ânimo. O brincar, a fala e o jogo se tornam a nova mecânica. 

Dessa forma, vemos um elenco muito coerente e conectado, conseguindo sustentar sua proposta do início ao fim e deixando o público interessado pelo que vem a seguir. O grupo já tem um bom material para esgarçar e aprofundar, mas é nítido o quão belo é ver que, logo em seu primeiro trabalho, o grupo é muito consistente no decorrer da narrativa e com um repertório já tão único de grupo