O Rinoceronte

Por Lucas Costa

A encenação do texto de Eugène Ionesco trazida pela Cia Paquiderme parte da insólita epidemia de transformações de humanos em rinocerontes que abala uma cidade e o cotidiano de um escritório, dando início a um embate filosófico e político acerca da normalização do absurdo e da relação do indivíduo com a sociedade quando esta parece banalizar a adesão irrefletida à desumanização.

Os figurinos brancos e o cenário minimalista composto apenas por cadeiras contribuem para um efeito de estranhamento um tanto onírico e desconfortável sugeridos pela dramaturgia, de modo que cada objeto é nmanuseado com máximo de precisão para dar a ver uma variedade de locais e situações.

 A conversão de personagens masculinos em femininas extrai do texto novas possibilidades de sentido que ficam sugeridas nas entrelinhas, conjugando-se com pontuais acréscimos no texto, com a inserção consciente do espetáculo em urgentes questões políticas do mundo contemporâneo.

Esse minimalismo, sobretudo, abre espaço para o principal trunfo do espetáculo que é a qualidade de seu elenco. Em cada gesto e fala, a partitura física e vocal não deixa pontas soltas, em atuações que exprimem a estranheza proposta pelo texto sem deixarem de soar naturais e revelam um rigor técnico primoroso. Sobretudo no trabalho de Carol Schmidt, no papel de Bérenger, encarnando em um crescente a paranóia e o desajuste de sua personagem.

Por Matheus Barbuio

Sempre que se é feita uma nova montagem de um clássico do teatro, a grande pergunta que se levanta é como vai ser colocado em cena esse texto que consegue resistir ao tempo e se manter relevante, e no caso dessa peça de Ionesco, onde o tema, infelizmente, não para de ser cada vez mais relevante, essa pergunta se evidencia ainda mais.

Ao mostrar uma alegoria bem humorada sobre o surgimento do fascismo em uma sociedade, essa encenação aposta no humor de Ionesco, usando um tom farsesco ao retratar o absurdo. Se mantendo muito fiel ao texto original, a peça se conecta com o Brasil atual de uma forma clara e ao mesmo tempo sutil, nunca apelando para uma formação de barra para criar esse elo.

A obra também traz escolhas muito interessantes, como inverter a comunidade retratada ao colocar as mulheres em evidência, sendo os homens uma minoria coadjuvante. É interessante ver essa fuga do óbvio, especialmente quando o espetáculo é uma crítica ao fascismo.

Outro elemento sutil, mesmo que esteja o tempo todo em cena, são as cadeiras no palco. As cadeiras ajustadas em ordem ou em desordem também são uma alegoria de uma sociedade, especialmente quando acompanhamos um espetáculo em que um desajustado é o único que não é corrompido por um coletivo doente.