Por Paulo Maeda
O teatro, ontem e hoje, hoje e amanhã, ontem e anteontem, as gerações e suas transformações… tanto a se discutir: a profundidade de uma obra através de perspectivas tão diferentes. E como o efêmero do teatro, que é só daquele instante, depois é revisado e revisitado na história? Penso que as gerações que puderam experenciar as obras então criticadas por Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi (citando alguns…), ‘O Balcão’ de Genet com direção de Victor Garcia, ‘A Vida de Galileu’ de Brecht, com direção do Zé Celso, ‘Arena conta Zumbi’ do Guarnieri e do Boal, com direção deste último (citando alguns…), essas gerações estão deixando de existir, as gerações que eram jovens demais ou não tinha nascido já atravessam um viés que só a imaginação pode dar conta…e as mais novas… Claro, hoje existem mais formas de se registrar, tentar guardar aquele momento que não pode ser guardado. Essa é a graça do teatro. Mas essa foi uma primeira camada de reflexão que me veio logo após assistir “Os Profissionais”, com dramaturgia de Márcio Tito e direção de Bruno Meng, em cena, Caetano Furquim e Wanderley Damasceno.
Outra, lembrei de uma fala, de figura que me ensinou tanto, sobre o que diferencia um profissional de um amador: um profissional recebe pelo que faz, o amador…só ama. Mas como as coisas mudaram para quem é da categoria… o passado “glorioso”, onde artistas estavam com a mesma peça em cartaz de terça a domingo (sábado duas sessões, domingo duas sessões, oh). Existia um público presente, cativo que foi se perdendo… telas, telinhas, tempo, teatro ruim, capitalismo… não entraremos nessa discussão… não? Porque essa enorme discussão está posta no texto de Tito, ela perpassa as nossas relações com a obra de arte e os nossos propósitos ao colocá-la em cena, pela beleza, pela política, pela beleza e pela política… em alguns momentos ela passeia até por um tom farsesco, o que percebo cada vez mais no estilo de escrita do dramaturgo, esse desejo de caminhar entre o que é leve e essa leveza do nada pode ficar tensa. Acho uma proposta rica, e nela os dois atores em cena desenham, às vezes mais a vontade para brincar às vezes um pouco receosos de ir para alguma radicalidade. Mas estavam jogando, estavam em cena e estavam se escutando.
A direção de Bruno Meng rotula seu cenário, as coisas são o que são, uma cadeira é uma cadeira, uma porta é uma porta, um tapete é um tapete… todos, artigos indefinidos. Seriam os artistas figuras sem definição clara? Como medimos e organizamos esse peso na balança? Em certo momento, o ator mais velho propõe atuar um texto de Shakespeare, a Helena de ‘Sonho de uma Noite de Verão’, e o quão sério e lindo ele pode se envolver com tal papel. O que me chama a atenção é o quanto nenhum dos artistas está lá para responder perguntas óbvias: era melhor teatro? era mais profundo? Era mais bonito? Era mais brega? Eles sabem disso e se propõe a problematizar o choque dessas duas realidades, essas gerações. O onde é o mesmo, o quando muda tudo.
Por Matheus Barbuio
A peça é uma comédia leve sobre conflitos de gerações. Ao assistir dois artistas em um embate que tem como pano de fundo um carinho mútuo, o público, neste caso formado em grande parte por artista, consegue rir de si mesmo e terminar a sessão com a mesma leveza que acabaram de ver no palco.
Assim sendo, o espetáculo funciona porque aposta no simples, ao trazer o foco para dois atores à vontade em cena, com bastante química e com um bom tempo cômico, percebemos que não é necessário muito para se criar uma boa obra teatral.
Outra grande sacada é evidenciar a cenografia e sua troca, ao invés de escondê-la, usando para isso também o elemento do humor. Os técnicos entram em cena para troca do cenário e são invisíveis para os personagens, mesmo eles não sendo tão bons em serem discretos, um elemento que dá um tom de fábula à peça, o que é mais um fator que se encaixa muito bem com tudo que está sendo construído em cena.
Por Carlos Sabbag
Um embate interessantíssimo entre um ator mais experiente e um novo dramaturgo, dividido em três blocos, mostra que o talento de Marcio Tito como dramaturgo não se limita a narrar a vida do submundo das cidades.
Em uma verdadeira declaração de amor ao teatro, e ao fazer teatral, o conflito entre o passado e o presente nos mostra que ambos têm a sua importância, embora confesse que os argumentos do ator mais velho me convençam mais.
A direção de Bruno Meng, que debuta no ofício com cenas bem desenhadas, e o jogo de cena que os atores Caetano Furquim e Wanderley Damasceno proporcionam deixam claro o motivo pelo qual o teatro é eterno: o talento verdadeiro supera todos os obstáculos e chega ao coração da plateia.
