A PRAÇA SE LEMBRA: DRAMATURGIA DA ESCUTA 

Quatro ações performativas sobre memória, encontro e escuta

Durante as Satyrianas, a Praça Roosevelt transforma-se em um grande território de escuta. Artistas, psicanalistas, moradores, frequentadores e pessoas que simplesmente atravessam o centro da cidade são convidados a oferecer algo que normalmente não tem preço: uma lembrança, uma história, algumas horas de convivência, um fragmento de vida.

A Praça se Lembra reúne quatro ações performativas que acontecem ao longo do festival e se contaminam mutuamente. 

Em Bazar de Memórias, lembranças pessoais são negociadas simbolicamente entre público e artistas. Em Piquenique no Parque, desconhecidos são convidados a dividir comida, tempo e conversa. Em Arquivo de Afetos, psicanalistas percorrem o evento para escutar aqueles que quase nunca tem voz. Finalmente, em Pequeno palco das memórias, atores transformam os materiais recolhidos nos dias anteriores em uma experiência cênica única.

O projeto parte de uma pergunta simples: O que acontece quando uma cidade resolve escutar a si mesma?

BAZAR DE MEMÓRIAS

Quanto vale uma lembrança?

No meio da Praça Roosevelt, duas cadeiras frente a frente. Em uma delas, um artista. Na outra, alguém disposto a vender uma memória.

Durante determinados períodos do dia, atores, atrizes e diretores participantes das Satyrianas assumem o papel de compradores de memórias. Qualquer pessoa pode se aproximar e oferecer uma lembrança pessoal. Pode ser uma memória de infância, um amor, uma vergonha, uma viagem, uma perda, uma alegria, uma cena aparentemente insignificante.

Antes de efetuar a compra, o comprador escuta a história. Ao final, decide se deseja adquiri-la e por qual valor. Se aceitar, paga de PD 1 a PD100 ao vendedor. PD é o dólar phedres. Phedra de Córdoba é homenageada com uma moeda única, que tem valor apenas na Praça Roosevelt. 1 dólar phedres equivale a 100 gramas de purpurina, 2 kg de lantejoulas e 100 toneladas de coragem.

Há aqui uma pequena provocação: nem toda memória encontra comprador e nem tudo aquilo que tem enorme valor para alguém possui valor para outra pessoa.

A negociação, portanto, também faz parte da performance.

Uma vez comprada, a memória passa simbolicamente para o artista, que poderá transformá-la, interpretá-la ou reconstruí-la diante do público. O vendedor será informado previamente sobre essa possibilidade e poderá optar por não fornecer nomes ou informações que permitam sua identificação.

Às 16h do dia 12 de outubro, segunda-feira, acontece a segunda parte da experiência. Vinte cadeiras formam um pequeno círculo em algum ponto da Praça Roosevelt. Ali, os compradores daquele dia apresentam algumas das memórias adquiridas.

Não se trata simplesmente de reproduzir os relatos. Cada artista decide o que fazer com aquilo que comprou: contar, interpretar, cantar, dançar, silenciar, transformar em monólogo ou até mesmo explicar por que determinada memória não conseguiu ser transformada em cena.

Ao final, uma pergunta pode permanecer escrita numa pequena placa junto às duas cadeiras:

“Você venderia uma lembrança? Por quantos dólares phedreses?”

SEXTA-FEIRA, 09 DE OUTUBRO

21h30 – BAZAR DE MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas

SÁBADO, 10 DE OUTUBRO

19h00 – BAZAR DE MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas

DOMINGO, 11 DE OUTUBRO

19h00 – BAZAR DE MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas

SEGUNDA-FEIRA, 12 DE OUTUBRO

18h00 – BAZAR DE MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas

PIQUENIQUE NO PARQUE

Uma mesa para quem ainda não se conhece

Durante quatro dias das Satyrianas, sempre às 17h, um grupo de desconhecidos é convidado a fazer um piquenique.

Não há ingresso em dinheiro. Para participar, cada pessoa deve trazer alguma coisa para compartilhar: pão, bolo, fruta, suco, café, refrigerante, uma receita feita em casa ou qualquer alimento que possa ser dividido.

As inscrições são realizadas previamente e os participantes são distribuídos aleatoriamente entre pequenos grupos. A regra fundamental é simples: o projeto procura colocar à mesma toalha pessoas que não se conhecem.

Na Praça Roosevelt, toalhas são abertas no chão e recebem os grupos.

Cada piquenique possui um anfitrião ou anfitriã, cuja função não é conduzir uma dinâmica de grupo, mas apenas provocar delicadamente a conversa quando necessário.

Sobre a toalha poderão existir pequenos cartões com perguntas:

Qual lugar da cidade você gostaria que não desaparecesse?
Qual foi a última pessoa de quem você sentiu saudade?
O que você faria se tivesse um dia inteiramente livre?
Que cheiro faz você voltar imediatamente à infância?
Quando foi a última vez que um desconhecido foi gentil com você?

Ninguém é obrigado a responder.

Também haverá cartões em branco, nos quais os próprios participantes poderão escrever perguntas para os desconhecidos daquela mesa.

O piquenique dura aproximadamente noventa minutos. Não há conclusão ou apresentação. As pessoas comem, conversam e depois vão embora.

Entretanto, ao final, cada participante que desejar poderá deixar anonimamente uma frase, uma pequena história ou uma lembrança surgida durante aquele encontro.

Esses fragmentos passam a integrar o arquivo de Memórias Recolhidas.

A performance nasce justamente daquilo que parece banal: sentar-se durante uma hora com pessoas que provavelmente jamais sentariam juntas.

SÁBADO, 10 DE OUTUBRO

19h00 – BAZAR DE MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas

DOMINGO, 11 DE OUTUBRO

17h00 — Piquenique no Parque — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

ARQUIVO DE AFETOS

Uma clínica provisória da cidade

Durante as Satyrianas, em uma pequena tenda no centro da praça, um grupo de psicanalistas deixa temporariamente o consultório para se juntar aos artistas na Praça Roosevelt.

Eles não realizam sessões de análise nem oferecem atendimento clínico. Tornam-se, durante algumas horas, colecionadores de histórias.

Moradores antigos, comerciantes, trabalhadores, artistas, ambulantes, porteiros, garçons, pessoas em situação de rua, frequentadores da noite, idosos, imigrantes, PCDs e personagens cotidianos da cidade são convidados a conversar.

A abordagem começa com uma pergunta:

“Você tem uma história de afetos que gostaria de compartilhar?”

A partir daí, o psicanalista-entrevistador interfere o mínimo possível.

Não se procura necessariamente a história extraordinária. Interessa justamente aquilo que normalmente desapareceria: o prédio que já não existe, o bar onde alguém conheceu um grande amor, a rua que mudou de nome, a primeira noite dormida no centro, uma amizade, uma violência, uma festa, uma janela, uma árvore, uma pessoa que todos conheciam e que desapareceu.

Cada encontro pode durar aproximadamente quarenta minutos.

Com autorização do participante, o relato poderá ser registrado por áudio ou anotado pelo colecionador. O participante decidirá se deseja ser identificado, permanecer anônimo ou escolher outro nome.

Ao contrário da Bazar das Memórias, aqui não existe pagamento. A moeda é outra: alguém oferece uma história e, em troca, recebe escuta.

Ao final de cada encontro, o colecionador poderá perguntar:

“O que desta história você gostaria que não fosse esquecido?”

Essa resposta será especialmente importante para a construção do final da performance.

SEXTA-FEIRA, 09 DE OUTUBRO

18h30 — Arquivo de Afetos (Gretta Starr)— A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

19h15 — Arquivo de Afetos (Miriam Queiroz)— A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

20h00 — Arquivo de Afetos (Leo Moreira Sá) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

20h00 — Arquivo de Afetos (Maura Ferreira) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

SÁBADO, 10 DE OUTUBRO

18h30 — Arquivo de Afetos (Pipa Luke) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

19h30 — Arquivo de Afetos (Cliffodi)— A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

20h30 — Arquivo de Afetos (Bárbara Bonnet) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

DOMINGO, 11 DE OUTUBRO

18h30 — Arquivo de Afetos (Yago Dionizio) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

19h30 — Arquivo de Afetos (Beatrice Rocha) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

20h30 — Arquivo de Afetos (Julia Picollomini) — A Praça Escuta — Tenda Satyrianas

PEQUENO PALCO DAS MEMÓRIAS

Aquilo que a praça decidiu guardar

No último dia das Satyrianas, a Praça Roosevelt recebe uma espécie de cerimônia de encerramento do projeto.

No centro da praça, apenas um espaço vazio delimitado por cadeiras.

Não há cenário.

Durante os dias anteriores, um pequeno núcleo de dramaturgia terá acompanhado Bazar de Memórias, Piquenique no Parque e Arquivo de Afetos, organizando o material produzido pelas três experiências.

Não se procura selecionar simplesmente as histórias “melhores”. Procura-se perceber quais histórias conversam umas com as outras.

Uma lembrança comprada por 1 a 100 dólares phedreses pode encontrar a frase escrita por alguém durante um piquenique. A história de um morador da região pode dialogar involuntariamente com a infância de um desconhecido. Uma mesma palavra pode ter aparecido inúmeras vezes sem que ninguém percebesse.

A dramaturgia nasce dessas coincidências.

Um grupo de atores e atrizes recebe esse material e cria uma performance de aproximadamente 30 minutos.

As histórias não precisam ser apresentadas integralmente. Podem ser fragmentadas, misturadas, repetidas ou transformadas em pequenas cenas. Alguns relatos poderão permanecer quase documentais; outros poderão adquirir uma dimensão poética ou ficcional.

Mas haverá uma regra ética fundamental: nenhuma história poderá ser transformada de maneira que exponha ou ridicularize quem a ofereceu.

No espaço cênico haverá uma cadeira vazia.

Ela permanecerá ali durante toda a apresentação.

Ao final, depois da última memória, um ator poderá perguntar:

“Alguém aqui tem uma história que ainda não foi contada?”

Se alguém se levantar, ocupa a cadeira.

E conta.

A performance termina quando essa pessoa termina sua história.

Sem comentário.

Sem aplauso provocado.

Apenas a praça, por alguns segundos, escutando.

Pequeno palco de memórias é aquilo que os outros outros projetos produziram sem saber. Com isso, as Satyrianas ganham uma pequena narrativa interna. Durante os primeiros dias, o festival recolhe a cidade. No último, devolve-a.

Há ainda um quinto elemento, muito simples, que poderia atravessar as quatro ações sem virar outro projeto: o Arquivo da Praça. Cada memória recolhida receberia apenas um número e algumas palavras-chave: “mãe / 1987 / rodoviária / despedida”; “primeiro beijo / República / chuva”; “bolo de fubá / avó / domingo”. Ao longo das Satyrianas, esses pequenos registros poderiam aparecer num painel, crescendo diariamente. No começo, quase vazio; no último dia, tomado pelas centenas de vestígios deixados pelas pessoas.

Assim, quem passar pela Roosevelt perceberá fisicamente que alguma coisa está sendo acumulada ali.

No fundo, os quatro trabalhos falam menos de memória do que de presença. Comprar uma lembrança, comer com um desconhecido, escutar durante vinte minutos alguém que talvez ninguém escute, emprestar o corpo para contar a história de outra pessoa. São diferentes maneiras de dizer a mesma coisa: durante alguns minutos, a sua vida importa para mim.

SEGUNDA-FEIRA, 12 DE OUTUBRO

18h00 – PEQUENO PALCO DAS MEMÓRIAS – A Praça Escuta – Tenda Satyrianas