por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
Essa leitura dramática cirúrgica (literalmente leitores, no curso desse texto
vocês entenderão) contou com a presença da própria autora da obra na plateia.
A narrativa gira em torno de Leka – atriz que faz o monólogo e inseriu
contribuições no texto – uma mulher vivendo num mundo pós anos 80, que, em
meio a lembranças da infância, adolescência e vida adulta, se vê
constantemente presa a um padrão estético imposto aos corpos femininos.
Há um jogo de palavras presente em “virar uma estrela”, próprio título da
apresentação. Isso porque Leka, desde a infância, queria conseguir dar uma
estrelinha (como em brincadeiras de criança), mas sempre achou que as
banhas, coxas grossas e outros atributos corpóreos a impediram. O homem
vitruviano, disse ela, tem cinco pontas como uma estrela, por que não virar
uma estrela? Esse virar estrela é um desaparecer também, quando se vê frente
à própria compulsão alimentar (esse monstro que a assola).
Fruto de uma poderosa atuação, Leka reconta fatos certamente vividos pela
totalidade do público feminino – ter vergonha de ir à praia, começar dietas
mirabolantes, passar por procedimentos médicos – e ainda, trava debates
intensos com o espelho (objeto cênico), que de forma interessante e interativa
é levantado pelo público, como se ela fosse a rainha má dos contos de fada
(espelho, espelho meu…) e ouvisse a voz do espelho.
Enfim, o final trágico e poético, “O corpo que cai”, além da musicalização ao
vivo, fez com que a experiência se tornasse mais rica. O corpo em movimento,
o corpo em êxtase, o corpo inutilizado. O que é um corpo? Instigante, reflexo
de uma sociedade que cultua cada vez mais o padrão.
