por Alexandre Gnipper
[@alexandregnipper]
Hoje eu conheci Joca e a sua história de tragédias e superações. Joca viveu coisas que só consegue contar pelo auxílio da voz em off, gravada, distante da cena e dos eventos reais, revificados por Joca em cena de forma poético-performativa.
Em cena vemos representada a casa de Joca, de maneira objetiva realista vemos ali todos aqueles objetos de uso cotidiano do artista, os quais serão ressignificados simbolicamente pela trajetória de ações do performer, ações de sua rotina que em consonância com o texto narrando sua história de vida, acabam por causar um efeito de proximidade e empatia para com o ser humano e sua história que se apresenta diante de nós, fazendo da cena uma janela poética que nos desvela camadas de nossa própria sensibilidade para com a dor alheia.
A encenação aposta em uma relação direta entre memória e ação, sem recorrer a artifícios dramatúrgicos complexos. A simplicidade formal acaba funcionando como eixo expressivo: a voz em off carrega o peso dos acontecimentos, enquanto o corpo de Joca, presente e vulnerável, produz um contraste que desloca a narrativa do campo do relato para o da elaboração simbólica. O resultado é uma fricção entre passado e presente que evita sentimentalismos e preserva a dignidade da experiência contada.
“Superações de um Baiano” se afirma, assim, como um trabalho que encontra força na honestidade do gesto. Ao final, não é apenas a trajetória de Joca que ganha relevo, mas a percepção de que a arte pode operar como uma forma de reorganizar o vivido. A peça se torna, então, uma espécie de reconciliação possível entre desejo, memória e presença.
