Renascença – entre o grito e a encruzilhada

por Luê Stracia
[@hastaluego.br]

Em um espetáculo-ritual, “Renascença – entre o grito e a encruzilhada”, se apropria das mais diversas simbologias afro-brasileiras para exaltar a potência e a beleza carregadas por mulheres negras periféricas e povos tradicionais de terreiro que, de geração em geração, tecem ciclicamente histórias individuais e coletivas.

O cenário é composto por ebós em alguidares, velas, folhas de guiné e cachaça, além da trilha sonora com sons da natureza, que criam um ambiente propício para fechar os olhos e respirar fundo. Além da figura de seu Zé Pilintra (o ator encarnou brilhantemente o personagem), vimos as figuras de três mulheres e uma criança, que aparentam ser gerações de um mesmo grupo familiar (de parentesco ou vivência compartilhada). 

Ao invocar o poder verdadeiro da mulher, o cuidado com os cabelos crespos e encaracolados, a coroa de rainha e as afirmações de auto carinho, a apresentação abre espaço para um exercício de esperança: o poder de continuar. Lavar o Orí cantando para Oxum, lavar as mazelas humanas, o preconceito, a preocupação para longe. Mais ainda, cantar para o sagrado (cânticos de candomblé) é um exercício de cura.

Na batida do tambor, uma mulher atabaqueira. Ouvimos o coro da plateia, pontos cantados para as entidades, animação genuína de todos os presentes. Espetáculo forte, potente e sagrado. Soube que a encruzilhada não é o fim, mas só começo.