por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]
A leitura dramática de Rapsódia Guarujá, texto e direção do Gabriel Alvim, foi um dos espetáculos mais recomendados na edição deste ano do Satyrianas. A história de Jacqueline, ex-traficante de drogas e mãe-solo, foi contata por cinco atores em cena, que permaneceram a maior parte do tempo em um único ponto do palco, evocando reminiscências do teatro estático de Maetterlink e do Club Noir. A encenação completa será em 2026.
Rapsódia–Guarujá é um vertiginoso inventário de restos — restos de corpo, de cidade, de memória, de um tempo que se pulveriza em neon verde como se o próprio ar estivesse contaminado. A dramaturgia de Gabriel Alvim constrói um mundo onde tudo vibra em ruído, como se a cena inteira respirasse por um pulmão cansado, cheio de gasolina, ferrugem, pó e madrugada.
Guarujá aparece como um espectro. O litoral que muitos querem acreditar idílico e que aqui reaparece como um arquivo de traumas, fugas, excessos e sobrevivências precárias. É um teatro de destroços, mas um teatro que se recusa a desmoronar; prefere permanecer oscilando, como o pisca-pisca verde que acompanha quase toda a ação, lembrando a cada segundo que a vida, por aqui, é mais elétrica do que estável.
RAPSODA e Jaqueline funcionam como duas superfícies de fricção. A primeira fala como quem tenta organizar escombros, mas cada frase nasce trincada, atravessada por culpa, autocrítica, alucinação e uma certa lucidez ferida que nunca se resolve. Jaqueline, por sua vez, é corpo em perseguição contínua — seja pela viatura fantasma, pela polícia real, pelos fantasmas do passado, pelo pó que transporta, pelos homens que a assediam, pelo avião que a comprime, pelas portas que não se abrem, pelos corredores que não terminam. O texto constrói nela uma espécie de geografia paranoica: motel, aeroporto, escritório militar, balsa, avião, hospital, tudo se mistura como uma cidade que se dobra sobre si mesma, gerando as vielas internas de um cérebro em colapso.
Os personagens orbitam como satélites rachados: o TikToker repetindo sua fala como quem recita o mantra vazio das redes; o Aeromoço esmagado pela rotina de aeroportos e sonhos tortos; o Tio, atravessador que tanto oferece soluções quanto aprofunda o abismo; o General, pai do Tio, figura de poder militar degradado que carrega na voz a violência patriarcal e na mão a cocaína barata que consome vidas alheias; a Senhora dos Tamales, que abre uma fresta para um mundo popular que não cessa — tamales, algodão doce, crianças brincando, a vida insistindo mesmo quando tudo parece à beira do desastre. Há também Dominic, Zaza, pequenas presenças que ampliam a atmosfera e deixam a dramaturgia mais porosa ao real, como se o espetáculo dissesse que ninguém cai sozinho: sempre há um coro de ruídos acompanhando a queda.
A peça opera numa lógica de repetição e ruído, onde som e texto se contaminam: Backstreet Boys, barulho de chuva, giroflex imaginário, equipamentos de hospital, mar sobreposto a vozes infantis, o tema da Banheira do Gugu irrompendo como absurdo carnavalesco em meio à paranoia. Essa colagem sonora constrói uma dramaturgia dos restos da cultura pop, como se o inconsciente brasileiro estivesse constantemente prestes a explodir sob o peso de suas próprias referências baratas — e é justamente ali, no choque entre o grotesco e o sublime, que nasce uma espécie de beleza intrusa.
Há uma melancolia profunda que percorre a obra, mas ela nunca se entrega ao lamento. RAPSODA fala do deslizamento que a engoliu até o pescoço quando criança, e esse trauma volta como metáfora constante: a vida que escorre, que afunda, que enterra. A maternidade aparece como manicômio interno, um bebê sempre prestes a cair — e a insistência em segurá-lo revela mais sobre a fragilidade dos adultos do que sobre a criança. Tudo na peça funciona como um eterno ensaio para um fim que nunca chega, mas que se anuncia em cada gesto.
A peça olha para seus personagens com a honestidade brutal de quem sabe que o mundo é feito de estruturas que esmagam e de afetos que resistem do jeito que podem. E, ainda assim, deixa um rastro de luminosidade: um convite para recomeçar, mesmo quando tudo parece ruína. Porque, no fundo, talvez seja só isso que nos resta — recomeçar, de novo e de novo, entre Santos e Guarujá, entre a infância e o colapso, entre a lama e o verde fluorescente que nunca apaga.
