Por que a tosse do Renato não passa

por Mariana Ferraz
[@marianaferrazmf]


“Por que a tosse do Renato não passa”, texto de autoria e direção de Márcio
Tito, irrompe na programação do 26º Festival Satyrianas como um cataclisma
do lado de dentro. Explico-me: no que se refere à tessitura dramatúrgica, o
espetáculo se ancora em pontos de encadeamento inusitados, que subvertem
estruturas de parâmetro narrativas forjadas no raconto cronológico, incitando o
público a adentrar um fluxo-transe-torvelinho-epifania que escorre ensandecido
entre as falanges do tempo. Quanto à ereção situacional, entre cenário e
paisagem sonora (constituída, aliás, pelo delicadíssimo e acertado trabalho de
Alexandre Gnipper), o espetáculo também chacoalha ao posicionar o
espectador “num quarto sujo de um hotel qualquer”, em que se acham garrafas
vazias, cinzas e bitucas de cigarro, restos de cocaína e roupas espalhadas pelo
chão; ao passo em que se escutam vozes distantes e borrosas, gemidos
provenientes de sexos mecânicos ou pornografia audiovisual, telefones que
gritam estridentes e outras estranhezas.

Todo este amálgama de solidão e valentia, desespero e volúpia, marginalidade
e coração saem à luz pela carnadura do ator Daniel Maschiari, que logra
materializar o delírio da personagem com tônus e precisão. Entregando à
plateia as intermitências e insurreições de um sujeito alocado no imo da fenda
— e que, talvez também por isso, não suporte a gravidade de seus próprios
pulmões —, Maschiari desempenha um trabalho de corpo e voz que faz jus à
fundura do texto, afirmando-se como intérprete sólido, versátil e, coisa um tanto
rara na cena contemporânea, como um ator que faz a dramaturgia caber em
sua boca sem a petulância esquisita dos que se pretendem co-autores de tudo.
Daniel é de fato, portanto, um ator agente, fazedor, executante, e não à toa
emerge como Renato e finda a jornada de festa como Dionysius-Baco-Le Fol.

Reiterando a consistência de linguagem do coletivo Tragédia Pop (que se
confirma, inclusive, pela participação pontual e purgativa de um ente ex-
machina, elemento característico da episteme de Tito, representado por Lucas
Costa), “Por que a tosse do Renato não passa” é dessas obras que deveriam
compor uma espécie de acervo permanente do teatro brasileiro, por ser uma
peça que desloca o público àquela identificação incômoda que consiste em
reconhecer Renato no outro e reconhecer-se um tanto Renato também.

Porque apesar da representação fidedigna do poeta errante, gênio absoluto
que, de tempos em tempos, visita resvaladouros, o texto de Márcio Tito cabe
na boca de Daniel Maschiari como cabe também no peito de outros tantos
perdidos, desviantes e prófugos que escrevem as coisas mais lindas entre o
álcool, a cocaína e o carbonato de lítio; vislumbrando, do mesmo modo que
Matsuo Bashō ao contemplar a lua (e, por isso, ser tomado pelos outros como
cego), o clarão solar num poste aceso na madrugada do Centro de São Paulo.
Como Renato, estes irreparáveis também se recusam a cumprir com os
roteiros e normas de uma sociedade que opera, entre violências e tibiezas, em
prol do soterramento funcional do que se sente; e as palmilhas de seus sapatos
também estão sempre molhadas, suas duchas também estão sempre
ocupadas por corpos anônimos e hesitantes, seus plexos também flertam com
o segredo que governa o sopro e suas tosses tampouco passam, se resolvem,
se colorem, se decifram.