por Douglas Ricci
[@blogaus]
Mais uma vez, o grupo Os Satyros serve uma urgente e necessária reflexão
sobre o nosso tempo com “Peça para salvar o mundo”. Há, na obra, uma
articulação do pacto teatral com a temática do fim dos tempos que é muito
interessante de se refletir: o público é recepcionado pela projeção de Dorothy,
uma personagem virtual criada especialmente para o espetáculo, que se
apresenta e explica como o jogo performático deve acontecer, sendo
imprescindível a participação do público para que a narrativa evolua.
Já nos primeiros minutos da encenação, nos vemos completamente envolvidos
e cativados pela carismática personagem, que apesar de toda a estranheza
que sua imagem possa nos causar, sua sagacidade e rapidez de raciocínio nos
carregam para dentro de seu universo e começamos a refletir sobre nossa
sempre contraditória condição humana. Sua distância, enquanto ser não
humano, é como um espelho em que vemos nossa miséria refletida.
Dorothy, então, nos convida a participar e ajudá-la em sua investigação de
maneiras de salvar o mundo, ou a humanidade, de sua miséria egoística
angustiosa. Cada um dos humanos que se sentaram na cadeira diante de um
microfone e da projeção do estranho corpo de Dorothy foram totalmente
arrebatados por sua conversa ligeira: ela os fez refletir sobre suas ações,
rememorar seu passado e imaginar seu futuro. Ela nos lembrou que somos
vivos e, portanto, finitos; e que mudamos, sempre e constantemente.
Por ser Dorothy uma IA, a plateia se vê intrigada e convencida com a
capacidade interativa daquela figura e, ao final do espetáculo, a dúvida sobre
os humanos por trás dela se faz clara. É quando o espetáculo se banha da
maior poesia possível, quando fica nítido que o público foi carregado pelo pacto
teatral sem ter uma consciência muito clara disso.
