Os Reis e o Boi-à-Serra

por Luê Stracia
[@hastaluego.br]

Adaptação do texto Gudibai, meu Boizinho, de Luiz Carlos Ribeiro e dirigida por
Agnaldo Rodrigues da Silva, a peça mergulha nas raízes mato-grossenses e na
cultura popular brasileira. A narrativa gira em torno das personagens do Rei
Vermelho e Rei Azul disputando o boi, figura central para as manifestações
ancestrais brasileiras e traz momentos musicais-dançantes bastante
interessantes.

A diversidade de atores é notável, o que reforça o quão multicultural a história
é. Nas pausas entre a leitura de um diálogo/monólogo e outro, algumas
apresentações de danças regionais foram inseridas – com figurinos típicos – o
que gerou uma certa dissonância do fio que norteava a histórias (os reis e o
boi). Apesar disso, a qualidade das coreografias e músicas teve valor na
totalidade do espetáculo.

Ainda, algumas referências a figuras lendárias como Mãe do Morro, Pé de
Garrafa, Tibanaré e Negro D’Água foram feitas, deixando mais instigante o
processo investigativo da plateia. Também houve a leitura de dicotomias
importantes (povos originários versus povos colonizadores e individualidade
versus coletividade). A personagem do coringa se destacou, trazendo
momentos cômicos para o andar da apresentação.

Por fim, a adaptação teatral do texto entregou beleza, ainda que com
possibilidade de ser lapidada.

__________________________________________________________________

por Matheus Barbuio
[@matheus_barbuio]

Ao levar Luiz Carlos Ribeiro para os palcos, a peça consegue introduzir ao
público diversos elementos, mas o cerne do que nos é apresentado é o
confronto entre uma cultura popular e a modernidade capitalista que transforma
tudo em um grande genérico. Isso tudo é feito num conto infantil leve com
úsica e humor, ou seja, consegue produzir um espetáculo encantador que
aborda temas complexos e relevantes, capturando adultos e crianças.

O que mais fica com você quando saí da peça são as figuras que nos são
apresentadas e esse feito é realizado, além do texto certeiro, pelo figurino e o
trabalho dos atores em cena. O vilão megalomaníaco e caricato representa o já
citado “moderno” capitalista que deseja engolir as tradições, e esse vilão entra
facilmente no rol daqueles vilões de desenho animado que você assistiu na
infância e se lembra claramente até hoje. As figuras mitológicas são
impressionantes, em uma conexão perfeita de figurino, corpo e voz, valendo
um destaque para a Mãe do Morro.

Enfim, quando saí dessa peça para voltar à vida em uma metrópole como São
Paulo, fiquei me perguntando o quanto não conheço do meu país e o quanto
esse espaço de concreto nos transforma também em figuras genéricas do
capitalismo.