por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]
Há peças que se constroem como labirintos de afetos — tortos, sujos, desiguais — e há peças que se constroem como trincheiras, onde cada palavra é atirada como quem tenta sobreviver mais um dia. “Os Insequestráveis”, de Márcio Tito, é as duas coisas: um labirinto afetivo e uma trincheira emocional. Um teatro feito das franjas da cidade, daquelas linhas borradas que insistimos em não ver, mas que são justamente onde a vida pulsa mais alto, mais errado e, por isso mesmo, mais verdadeira.
Tito recorta esse mundo com precisão de quem viveu cada esquina. Nada aqui é ilustrativo ou sociológico. O texto nasce de dentro — da língua dos carregadores, da ética ferida dos “narcóticos anônimos”, da ternura desviada que aparece onde menos se espera. Tudo é dito de maneira crua e, ao mesmo tempo, cheio de uma poesia quase acidental: uma poesia que escapa dos personagens sem que eles percebam. A peça começa com a morte de Seu Armando, mas o que se encena é outro tipo de morte: a morte das garantias, das versões estáveis de si, da fé improvável de que o amor ainda serve pra alguma coisa nesse mundo esgarçado.
A dramaturgia tem uma engenharia muito própria: Tito organiza o caos. Cria uma sinfonia para corpos perturbados, cada um com sua cadência, sua mania, seu vício, seu gesto interrompido. Os diálogos têm uma musicalidade interna, um ritmo falho que produz verdade. E talvez a maior força do texto esteja justamente naquilo que não fecha — nos impulsos interrompidos, nos afetos que não encontram lugar, nessa tentativa patética e heróica de cada um ali tentar salvar alguém enquanto mal dá conta de respirar.
Bigode, Duff, Fidel, Beto, Hendilly, Júlia, Marici — ninguém é “coadjuvante”. A peça funciona como uma constelação de sobreviventes, todos orbitando em torno de Seu Armando, esse fantasma de pai que nunca foi pai, mas foi, paradoxalmente, o único adulto da sala. Há um humor devastador na forma como essas pessoas se relacionam com a dor: rir é a única maneira possível de continuar vivos, e Tito entende a comédia como aquilo que surge quando a tragédia começa a escorrer pelos cantos.
O texto alcança grandeza no modo como captura as derivas emocionais de quem vive no fio: a recaída, a ameaça de recaída, o discurso bonito que esfarela no primeiro sopro, a tentativa ridícula de ser melhor, a necessidade compulsiva de se autossabotar. E, em meio a tudo isso, uma delicadeza que aparece quando ninguém está preparado. A cena entre Hendilly e Marici, por exemplo, rasga o espetáculo ao meio: ali a peça descobre um outro tipo de possibilidade — o amor como invenção, como teimosia, como obra de um mundo que insiste em não acabar.
Há ainda outra camada, silenciosa e lindíssima: “Os Insequestráveis” é um manifesto sobre cuidado. Sobre como o cuidado pode ser um gesto desesperado, ambíguo, atravessado de violência e egoísmo, mas ainda assim profundamente humano. A pergunta que ecoa, de cena em cena, é: quem cuida de quem? E a peça responde, sem romantizar nada, que às vezes quem cuida é justamente quem está mais fodido, mais quebrado, mais inadequado.
O cuidado, aqui, não é virtude — é necessidade mútua, quase fisiológica.
A cidade — Minhocão, viadutos, botecos, NA improvisado — não é cenário; é personagem. O mundo de Tito funciona como um grande pulmão corroído, que respira mal, mas respira. Há uma ética de rua que organiza essa dramaturgia: cada personagem repete “você sabe da minha história”, como se dissesse “você sabe que eu sou humano apesar de tudo”. É comovente — e é político.
O final não oferece resolução, e ainda bem. O teatro de “Os Insequestráveis” não se interessa por saída; interessa-se por vínculo. O que permanece são os afetos que resistem mesmo quando tudo falha. Os cartazes arrancados, a precariedade de um novo NA, a herança emocional de Seu Armando, o beijo entre Hendilly e Marici: tudo isso compõe um gesto de continuidade, como se a peça dissesse que ninguém se salva sozinho, mas todo mundo salva alguém, mesmo que por alguns segundos.
Leio cada peça do Márcio Tito como quem recebe um segredo, uma notícia do subterrâneo, uma carta escrita de dentro do próprio ferimento. “Os Insequestráveis” não surge isolado, conversa com uma constelação de obras que Tito tem construído ao longo dos anos, sempre em torno de comunidades improváveis e afetos trincados. Em !! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !! a palavra é ferramenta de salvação, um corpo estendido ao outro. Maitê na Pior opera esse mesmo desespero, a tentativa de não desaparecer na ruína pelo julgamento mentiroso do outro. Nossa Senhora das Transexuais deixa em aberto se é uma narrativa fantástica, um delírio ou um blefe. No Banheiro Sujo de um Bar Qualquer radicalizava a precariedade, colocando corpos feridos num espaço onde a dignidade só existe como gesto teimoso. “Os Insequestráveis”, nesse contexto, é um ponto de maturação dessa trajetória, obra em que Tito organiza o caos emocional com precisão brutal e delicadeza profunda. Reconheço nesse texto a continuidade de uma conversa longa, íntima, feita de noites mal dormidas, literatura, gargalhadas tortas e um afeto que nos atravessa.
