O Sonho do Psicanalista

por Mariana Ferraz
[@marianaferrazmf]

“O Sonho do Psicanalista” é um trabalho delicado, sinuoso e enigmático, que
convoca o público a percorrer a labiríntica e indecifrável redoma da mente
humana a partir de uma sorte de jogo onírico de cruzamentos, sobreposições e
espelhos entre um médico psicanalista, interpretado por Roberto Borenstein, e
uma cliente ou paciente, encarnada por Fernanda Sanches – também autora
do trabalho.

Amparados pela espetacular iluminação de Thiago Capella, médico e paciente
galgam os degraus dessa narrativa que desregula os parâmetros de vigília e
sono profundo, realidade e ficção, cordura e transe delirante, condicionando o
público a um descolamento raro que comporta simbologias invertidas e
desvarios propositais quanto ao que se passa no consultório de Borenstein –
que, aliás, quebrando a quarta parede com a plateia, galopa fragmentário para
estabelecer, exitosamente, uma atmosfera de estranheza quanto à fidelidade
no real.

Ainda que a proposta dramatúrgica de “O Sonho do Psicanalista” seja,
propriamente, a de uma peça curta, considera-se que o texto escrito por
Fernanda Sanches e dirigido por Mariana Leme é realmente bom demais
para durar apenas 15 minutos. Intumescido da insânia, o espectador deste trabalho
deixa o teatro prenhe de incógnitas e pulsões confundidas, torcendo profundamente
para que uma montagem futura ofereça mais tempo de cena, de transe, de
encontro com o mistério.