por Marcio Tito
[@marciotitop]
Dênio Maués, dramaturgo sempre interessado em diálogos que tornem poéticos expedientes casuais, transparece seu ethos sensível tanto em texto quanto em presença, como homem de teatro e amigo querido. Tudo isto significa dizer que, no limite, sua fala calma e seu riso fácil não encontram dificuldades na hora de tornarem-se cálidas e cênicas percepções acerca da vida e do outro, sobretudo quando a coisa se arranja em direção ao limite das relações e da presença, especialmente no contexto pandêmico.
Se o material acolhe a solidão das figuras por meio de diálogos contundentes e postos entre a metáfora e o desejo autobiográfico de quem pensava acerca da própria finitude ao longo de uma pandemia e durante o governo de um presidente funesto, também a cena se faz como delírio urbano, cruzando leituras de mundo e percepções que, embora autorais, acessam com fácil temperatura lugares da razão e do sensível.
O título, provocativo e capaz de conter uma arguta provocação acerca da pausa coletiva trazida pela COVID-19, realmente nos sugere refletir acerca de quais foram os riscos corridos ao longo dos dias: você pensou o que não teria pensado, gozou como não costumava gozar ou terminou lendo algum livro que jamais teria lido?
Ressentiu-se? Calou?
E, se o perigo sugere fato iminente, logo, qual cena se impôs após os riscos vividos?
Você correu perigo ou determinou-se a ficar seguro junto às melhores lembranças de uma vida igualmente segura e dedicada às experiências semente sóbrias?
Destaque para as interpretações magnéticas e objetivas, bem como ao contrato de uma direção objetiva, sóbria e capaz de cumprir o evento ao emprestar protagonismo ao ótimo texto de Dênio Maués.
