por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
A apresentação do Coletivo Deforme foi surpreendentemente sinestésica, com
um elenco jovem enérgico e recursos de sonoplastia importantes para o
desenrolar do espetáculo. A história gira em torno de Ana, uma menina que, ao
longo da vida, precisou lidar com os seus medos – o medo de escuro, do
abandono, da mudança, de crescer. Ana, depois Rafaela, ou Ana/Rafaela, é
representada por mais de uma atriz/ator, o que traz uma flexibilidade poética
para a narrativa.
A personagem é rodeada pelas suas emoções e pensamentos, personificadas,
como seus “divertidamentes”, que expressam a raiva, medo, empatia e paixão.
A vida de Ana muda após um acontecimento traumático que a deixa
emudecida, e a construção cênica implica em coreografias e cantos que, de
forma complexa, constroem a imagem deste trauma. A escolha da canção de
Dorival Caymmi foi certeira e ajudou a criar esse “clima”, bem como a imagem
do mar, que significará a liberdade da menina.
No meio de tudo isso, surge a figura de Belinha, a boneca de pano (presente
de sua mãe), que aparece como observadora-reflexiva, mais uma personagem,
que de forma divertida transforma o funcionamento da mente humana em um
talk show, cheio de cenas cotidianas e passagens oníricas do universo
inconsciente.
Tanto o cenário como a caracterização das personagens trazem a leitura
sensível sobre o escuro, o medo, o desconhecido. De certa forma todos somos
ou já fomos ou seremos Ana. Leitura sensível e especial sobre o processo mais
duro de todos: crescer.
