Maitê na Pior

por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]


“Maitê na Pior” foi a primeira peça do Márcio Tito que li. Na leitura dramática,
realizada na última quinta-feira na programação da Tenda Satyrianas, vi o texto
ganhar corpo, em especial com as atuações precisas de Santelli e Daniel
Maschiari, protagonistas do jogo.

“Maitê na Pior” irrompe como um soco lento, desses que a gente vê chegando,
sabe que vai doer, mas ainda assim não consegue desviar. Desde a primeira
rubrica, existe ali uma coreografia da precariedade: uma travesti que limpa,
arruma, organiza e tenta deixar impecável um espaço que nunca será seu. O
apartamento, esse cubículo no centro de São Paulo que alguém chama de
ruim, funciona menos como cenário e mais como personagem, um organismo
sufocado por cheiros inventados, humilhações concretas e uma cadeia de
micropoderes que atravessam o cotidiano das vidas descartáveis. A limpeza de
Maitê, obsessiva e digna, já é uma forma de resistência; mas também é a
armadilha perfeita para que os outros possam acusá-la de tudo aquilo que eles
próprios carregam impregnado no próprio corpo.

A entrada de Cleber, o filho do dono do imóvel, opera como o disparo da
tragédia pop contemporânea: um homem rico o suficiente para não precisar
bater na porta, mas miserável o bastante para transformar um odor imaginário
num instrumento de tortura social. O texto faz um jogo minucioso com o tema
do cheiro, esse elemento invisível, impossível de provar, mas devastador como
prova moral, e o utiliza para construir uma fábula cruel sobre transfobia
cotidiana, exploração, chantagem e a política da sujeira. Em cena, o “cheiro de
chulé” é uma ficção conveniente, uma retórica de poder que transforma o corpo
de Maitê num depósito de culpa, numa superfície onde os homens despejam
suas paranoias, seus fracassos, seus recalques. É impressionante como a
dramaturgia captura o mecanismo clássico do gaslighting, da violência que se
disfarça de zelo, da chantagem que se reveste de burocracia.

À medida que Cleber envenena o ambiente com sua certeza autoritária,
sempre modulada por silêncios, pausas e uma arrogância quase infantil — a
peça vai ganhando temperatura. A chegada do cúmplice e de Dinha aprofunda
ainda mais a espiral moral: cada nova entrada reafirma a lógica da suspeição,
do controle e da manipulação. Todos parecem operar numa mesma sintonia de
violência cordial, como se estivessem apenas “fazendo o que precisa ser feito”,
repetindo mecanismos herdados de décadas de opressão urbana. É
perturbador, e ao mesmo tempo muito real, como todos acabam colaborando,
orgulhosamente, para manter Maitê no lugar da subalternidade, não porque
acreditam de fato no tal cheiro, mas porque precisam acreditar em alguma
coisa que os preserve da própria ruína.

“Maitê na pior” mostra com precisão o lugar social do corpo dissidente. Uma
obra que sabe que o horror do cotidiano não se anuncia só com mortes
espetaculares, mas com pequenas torções discursivas, pequenos abusos de
autoridade, pequenos constrangimentos que corroem o sujeito até que ele
desabe no chão, como Maitê. O texto é feroz, político e profundamente teatral,
usa a cena como campo de disputa entre versões, percepções e narrativas.

No fim, o que fica é a sensação de que a peça não quer oferecer consolo, nem
esperança fácil. Quer que a gente reconheça o cheiro, não o que acusam, mas
o que realmente está no ar: o odor persistente e insuportável de uma
sociedade que ainda precisa transformar corpos vulneráveis em depósitos de
imundície para manter em pé suas ilusões de ordem.