por Lucas Costa
[@lukacsgenerico]
Um grupo de lagartos religiosos começa uma perseguição a outro grupo de
lagartos que, então, insiste em manter seus hábitos corriqueiros, dando início a
uma briga sem fim.
Em “Lagartos e Pelados” vemos o itinerário da eterna disputa pelo corpo e seus
modos de existência na figura de lagartos vestidos de freira que saem à caça
dos seus iguais que não usam roupas e que organizam a vida de outra
maneira.
Destaca-se o trabalho de corpo e voz dos atores em partituras
milimetricamente trabalhadas, neste espetáculo cômico que tem uma
linguagem verbal quase inexistente, para jogar com os diversos signos culturais
que vão da igreja católica, passam pelo cinema e chega, surpreendentemente,
a um McDonald ‘s.
Por isso, também, o figurino e os gestos são parte constituinte da narrativa e
portadores de significado que movem o conflito central. Vemos em cena,
através da comicidade e de constantes jogos de expectativa com o público, um
violento embate entre a colonização do corpo, a captura do desejo e a
disciplinarização da vida, de um lado; e os respectivos modos de fuga e
resistência, de outro.
Entre mutilação e regeneração, culpa e liberdade, servidão e solidariedade,
“Lagartos e Pelados” encena, diretamente, um olhar panorâmico e sintético da
luta por modos de ser no mundo.
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por Matheus Barbuio
[@matheus_barbuio]
Assistir a esse espetáculo me fez perceber que existe uma genialidade na simplicidade. A peça sabe abordar temas contemporâneos profundos e complexos de uma forma simples e bem-humorada, de tal forma que você como espectador esqueça que tais temas são tudo isso e por consequência os receba de forma desarmada, o contrário que a nossa sociedade polarizada nos força a fazer. Toda essa leveza nos faz pensar que a solução desses assuntos, no fim das contas, não seja tão complexa assim, e que talvez toda a dificuldade de os resolver seja culpa nossa.
Partindo de um título que já é um trocadilho e não abandonando o humor em nenhum momento, a montagem se camufla bem e é fácil cair na armadilha de achar que se está assistindo a uma peça despretensiosa. É exatamente nisso que está toda a sua pretensão e genialidade, ao abordar sexualidade e repressão religiosa dessa forma.
Isso se materializa no palco graças a um trabalho muito consistente dos atores em criar um tipo de humor físico de forma sólida e precisa – o que também inclui o jogo dos intérpretes com o figurino, já que ambos funcionam de forma muito bem integrada, o que por consequência, cria signos poderosos em cena.
