por Douglas Ricci
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A peça “Ghostwriter”, da Cia. de Fachada, começa apresentando uma escritora que ganha a vida como ghostwriter, termo usado para designar o profissional da escrita que vende seu trabalho para que terceiros assumam a autoria. O sonho dela, a personagem, é poder um dia conseguir publicar um trabalho por si mesma, assumindo-se como autora. A trama então nos apresenta o entorno da personagem: seu cliente, um influenciador que pretende alçar-se a uma carreira política em breve, e seu futuro namorado, um escritor renomado em crise de criatividade e tendências depressivas.
A partir dessas premissas do enredo do espetáculo, a peça então vai se desdobrando em uma trama que se assemelha a séries policiais das plataformas de streaming, onde cada mudança de cena, parece ser um novo episódio, repleto de reviravoltas e de efeitos de suspensão de atenção para cenas do próximo capítulo. Acho muito interessante a investigação dramatúrgica que se propõe a testar esse formato no teatro. Mas depois de assistir à peça fiquei seriamente me questionando se isso funciona para um ambiente teatral, onde a relação entre a obra e o espectador é de outra ordem.
Acredito que o que mais me fez entrar nesses questionamentos foi a escolha da montagem em fazer um híbrido entre as linguagens narrativa e dramática. A peça começa abolindo a quarta parede, com a atriz entrando pelo público e interagindo com ele, o que logo vai para uma situação dramática em que ela parece estar mergulhada na lógica da fábula apresentada, mas mesmo nessas situações em que estamos sendo levados pelo drama, os atores as comentam, com o público, através de olhares e sorrisos, e acredito que isso enfraquece nossa crença na narrativa que se constrói.
Para além disso, destaco aqui o trabalho feito com os figurinos e a escolha da paleta de cores da encenação, que dá um tom elegante para a cena. Parabenizo também os atores que bravamente levam a narrativa adiante até sua finalização, a despeito das reações da plateia diante das tão impressionantes reviravoltas da trama.
