por Paulo Maeda
[@paulomaeda1]
Tempo, 2025, em direção à terceira década do século XXI. O local, uma sala escura com fantasmas e memórias em suas paredes (alguns eu conheci), situada na praça roosevelt, número duzentos e catorze. O prólogo desta reflexão situa este espaço-tempo, porque ele é o “onde” e o “quando” da peça protagonista dessa escrita, porém o desenvolver crítico escrito é reunião de memórias e experiências de outros espaços e tempos, não vou reprimi-las, portanto…
Tempo, 2004, primeiros anos do século XXI. O local, a mesma sala com fantasmas e memórias (de outras épocas), o mesmo número, duzentos e catorze. No meu corpo jovem de dezenove anos existia a fome de vivência, toque, choque, experiência e experimento – e não que não existam desejos no corpo de 2025, bem distante de julgamentos de valores, hoje eles só atravessaram algumas estações a mais, só isso… – li essa fome genuína ao assistir “O Evangelho dos Marginais”.
O trabalho é uma adaptação a partir da obra de Ramón del Valle-Inclán, “Divinas Palavras”. No original, Joana Rainha é mãe de um jovem com hidrocefalia, ele é explorado por ela, exposto à cidade como uma aberração, quando ela morre a família entra em conflito sobre a herança, o filho, para virar objeto de lucro para eles também. É uma sociedade sem pudores, as instituições estão falidas, a igreja e a família expõem o cinismo enquanto estado de ordem. Segundo Safatle “o cinismo é a categoria adequada para expor a normatividade interna da vida hegemônica no capitalismo contemporâneo”.
Em 2004 participava do primeiro NES (Núcleo Experimental dos Satyros) e pesquisávamos vida e obra de Nelson Rodrigues, montamos uma obra chamada “Rua Taylor, n°214”, primeiro dirigido por Nora Toledo e na sequência assumido pelo saudoso Alberto Guzik. A fome da exposição da crítica ao mundo estava lá, em uma pesquisa do corpo malandro, da dondoca, do bicheiro… enfim todos os arquétipos rodrigueanos, e com todas suas fragilidades da juventude, um tônus corporal tenso, uma voz ainda entendendo suas nuances, um correr atrás de um estado denso. A fome hoje é outra, óbvio, porém tem seus paralelos. Ainda existe esse querer mostrar, apontar…
O caminho diegético de criar narrativas potentes já pede um estudo do grotesco, do expressionismo, de um histriônico mais monstruoso – tão desafiador quanto o anterior – a sociedade hoje pede uma exposição mais grotesca? O corpo da filha, nesta adaptação vira comida devorada por urubus, pois não foi enterrada. Nesta terra não existe um vislumbre de Antígona para sepultar os mortos, aqui os mais jovens também já estão sendo abraçados pelo lema deus-pátria-família. Toda essa nostalgia para pontuar essa força jovem em estudo, experimentação, se expondo e jogando. Vale sempre lembrar o quão além ainda podemos chegar, sempre o buraco será mais embaixo e podemos potencializar cada uma das ideias que propomos em cena, seja com o gesto, com a voz, com o significado da imagem que está propondo enquanto diálogo com ao público.
Vida longa à essas potentes gerações que vem aprender, conviver e defenestrar as anteriores, seguimos na lida e na luta desse ofício tão duro e tão belo que é o do teatro.
