Ensaios sobre a Existência

por Luê Stracia
[@hastaluego.br]

“Ensaios sobre a existência”, dramaturgia de Djalma Júnior e direção de Yuri Garcia, apresentou uma divisão em cinco partes, dando luz a temas como a sobrevivência humana em uma metrópole no mundo contemporâneo, a vulnerabilidade socioemocional e a sufocante existência pós trauma.

A estrutura em partes sugere uma espécie de ensaio teatral filosófico: cada segmento abre uma janela diferente para a condição humana, instigando o público a refletir sobre propósito, abandono, tempo e pertença. Nas primeiras cenas, acompanhamos a história de um professor de português, que vive um evento trágico e se vê sozinho em uma cidade cinza, apenas contando com a presença de sua mala.

Os fragmentos de vídeo projetados, mostrando o próprio ator (Luiz Oglou) em cenas cotidianas por São Paulo, trazem a ambientação necessária para o tom da apresentação – barulhos de buzinas, prédios, pessoas apressadas. A montagem mantém um equilíbrio delicado entre ação e contemplação, permitindo que o sofrimento do personagem seja sentido com humanidade e sobriedade. A mala, que parece um objeto banal, se torna símbolo de memória, perda e ou de uma identidade fragmentada — uma escolha simbólica poderosa que sustenta a profundidade da narrativa.

O espetáculo se destaca por sua capacidade de dar voz às “pequenas existências” marginalizadas, sem transformar a dor em espetáculo sensacionalista. Além disso, a atuação de Luiz Oglou, sempre provocadora e instigante, não deixou de acertar com precisão o incômodo que traz a impessoalidade do dia a dia.

Por fim, “Ensaios sobre a Existência” ganha relevância por ser uma peça que conversa com nosso tempo, onde a precariedade e a solidão se tornaram companheiras de muitos, e reforça a ideia de que a arte teatral pode ser um lugar de resistência e de reflexão comunitária. A cena final, mostrando as pessoas desaparecidas na cidade, tira do anonimato muitos rostos que vagam (ou não) pelas ruas, sem rumo, sem direção.