por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
“Ensaio do Santo Pecado”, dirigido por Guilherme Andrade, parte de uma investigação sobre o limite entre o sagrado e o profano a partir do conhecido texto “Divinas Palavras” (de Ramón María del Valle-Inclán), criando uma cena em que figuras comuns revelam suas contradições mais íntimas e a narrativa se dá no próprio Espaço Satyros.
A metalinguagem que transita entre os momentos de ensaio e de apresentação é um ponto interessante – faz o público acompanhar a construção das personagens e as indagações dos próprios atores. O espetáculo funciona como um grande ensaio coletivo onde todos, em algum nível, estão tentando justificar ou esconder seus próprios “pecados”.
A peça acompanha personagens que transitam entre fé, culpa e desejo, construindo pequenas narrativas que se entrelaçam até formar um embolado de humanidade falha — e, justamente por isso, reconhecível por todos. Joana Rainha, as beatas, Laureaninho, Mari-Gaila, o sacristão Pedro Gailo, Marica do Reino, Cumpadre Miau, La Tatula e Miguelin se misturam entre casos de adultério, exploração de pessoas com deficiência, estupros e outras “barbaridades” que o ser humano é capaz de executar sob a bênção de uma cruz.
Um dos pontos mais fortes da montagem é a forma como o humor ácido se mistura à tragédia cotidiana, incluindo referências super contemporâneas e hilárias (“em São Paulooo”). Nada é mostrado de maneira moralista; ao contrário, as contradições humanas aparecem com naturalidade, quase com desconforto, como quando rimos de algo apenas para perceber o peso da situação logo depois. Essa ambiguidade mantém a plateia sempre atenta, refletindo sobre as próprias máscaras que veste no dia a dia.
No fim, “Ensaio do Santo Pecado” revela um espetáculo que provoca inúmeras dúvidas — e é aí que reside sua força. Andrade constrói uma obra que nos lembra que a moralidade, muitas vezes, é apenas um jogo de aparências, enquanto o que realmente nos move permanece escondido no subterrâneo dos afetos. É teatro pulsante, inquieto, que convida o público a encarar aquilo que prefere evitar, sem perder a poesia do conflito humano — incluindo a performance incisiva e satírica de todos que atuaram.
