por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
Nesta belíssima homenagem à música popular brasileira, o multi-instrumentista
Gesiel de Oliveira surpreende contando histórias de um Brasil profundo, do
caboclo roceiro ao vaqueiro do sertão até a história de amor e fanatismo que
consolida a narrativa principal: de Francinete Barbosa Gomes, a Neneta,
empregada doméstica nordestina e apaixonada pelo cantor Raimundo Fagner.
O texto de Carlinhos Lira é divertidíssimo e a atuação de Maria Rocha, com
alguns objetos cênicos simples (um roupão, um telefone, uma garrafa de
whisky, uma revista, um buquê) é potente e orgânica, de modo a relacionarmos
Neneta com alguém que conhecemos, ou vamos um dia conhecer. Além disso,
a personagem traz críticas importantes entre classe média (patroa) e classe
trabalhadora (empregada doméstica) – em uma passagem, ela diz que para
aparecer no jornal ou revista, só matando ou roubando. Cenário que escancara
o que é o Brasil e suas relações desiguais de poder.
Neneta recebe uma ligação que a revela como vencedora do concurso para
conhecer Fagner pessoalmente. Entre algumas reflexões, ela se embriaga e a
cena de bebedeira é espetacular, marcada pela trilha sonora ao vivo, com
faixas de Raimundo Fagner, Odair José e Fábio Júnior. Também é perceptível a
dicotomia dos saberes populares versus saberes eruditos e acadêmicos, em
jogo até o fim da narrativa.
A simbologia desses cantores e como penetram nas classes populares de
forma a criar uma ancoragem de esperança, amor e significados, foi, por fim, o
cerne da apresentação.
