Despalhaço

por Marcio Tito
[@marciotitop]

A escolha segura e óbvia para quem construiu um percurso indiscutível seria testemunhar o que nos resta e manter-se guardado por sua própria fórmula e identidade artística, contudo, como exigência surgida da própria constituição da figura do palhaço, o que surge é um profundo debruçar-se, em modo de confissão e luta, contra questões nítidas e invisíveis, evocando textos e procedimentos tão fundamentais quanto tragicômicas.

O pensamento elétrico, treinado e refinado ao longo de décadas, porque agora é preciso derrubar as máscaras e afirmar o gesto, atravessa o material de modo parresista e, deste ponto, torna-se plenamente visível uma série de conquistas que colocam em cena procedimentos cujas arestas afirmam a luta da forma junto àquilo que se ergue por dentro da necessidade de dizer, seja como for, com qualquer roupa, tornando mais complexo tudo o que aparece exprimido conforme o espírito de um artista que tramou as cenas de sua vida sob as mesmas contradições de sua experiência artística, criativa e urbanística, no contexto de um grupo com atuação cultural e social.

Ao longo do material, brilham diversos acertos que tornam sempre mais robusta a experiência crítica e cênica, sobretudo quando Raul Barreto dedica-se a lançar números clássicos quase à esmo, talvez como quem, em variadas medidas, precisa colocar em cena partes de sua própria dúvida acerca do convívio com tantas tarefas e desafios naturais ao destino de um artista.

“Despalhaço” é um réquiem compulsório e atormentado, capaz de afirmar solitários um homem e um país.