Desejo por mangas

por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]

A arte muitas vezes funciona como um modo de se aproximar do trauma e contornar a dor, fazer borda ao sofrimento. Em vez de exigir explicações, o teatro oferece espaço para que a dor se transforme em gesto, imagem e palavra, encontrando uma forma possível de existir fora do corpo ferido. Nesse movimento, não há a promessa de cura, mas a abertura de uma fresta onde o peso se reorganiza e o indizível ganha forma. Assim, a criação torna-se um caminho lateral, delicado e necessário, para seguir adiante quando o impacto ainda reverbera.

É nessa chave que opera “Desejo por Mangas”, de Dalia Taha, que ganhou leitura dramática na última sexta-feira no Festival Satyrianas. Dalia é uma das mais importantes vozes da dramaturgia palestina contemporânea. “Desejo por Mangas” é uma peça curta, uma das seis partes que compõem a obra parte de uma obra maior chamada Keffiyeh / Made in China), com seis textos de Dalia, publicada pela primeira vez na coletânea Inside/Outside: Six Plays from Palestine and the Diaspora em 2015. 

Na peça, um homem e uma mulher são chamados a reconhecer o corpo do filho morto. Localizada em um espaço burocrático, frio e anônimo, desses que administram a morte como rotina, a cena se constrói a partir da incapacidade do casal de confirmar a identidade do menino. Entre hesitações, descrições truncadas e a tentativa desesperada de reter alguma imagem viva da criança, o texto expõe o choque que impede a nomeação, o gesto interrompido pela recusa em aceitar o irreparável. 

Nada acontece de grandioso: é no mínimo, no quase dito, no silêncio que pesa, que a violência se inscreve. A situação é simples, mas o que se revela é muito maior: a impossibilidade de representar o trauma, o colapso entre memória e realidade, o desejo súbito por algo tão banal quanto mangas — símbolo de uma normalidade perdida — emergindo como último resquício de vida num mundo que ruiu.

A leitura foi apresentada por Fernanda D’Umbra, que explicou ser iniciativa dela e de Julia Bobrow, ambas atravessando um período de luto pelo falecimento de pessoas próximas. É uma forma do teatro afirmar-se como pulsão de vida, mesmo quando tudo parece ruim e a dor ser eterna.