por Mariana Ferraz
[@marianaferrazmf]
Ainda que careça de certos ajustes e robustecimentos, “Contos da Meia-Noite”
é um trabalho que se sustenta, desempenhando uma função especialíssima na
programação do 26º Festival Satyrianas ao incorporar, à vastíssima diversidade
temática do evento, um espetáculo teatral advindo de um escopo narrativo – o
do horror, do medo, do macabro – não tão frequente ou requerido na cena
contemporânea.
Em termos gerais, destaco a sobriedade do cenário e do figurino, que
corroboram com o estabelecimento de uma sorte de concentração superior da
plateia quanto àquilo que se materializa em cena. O texto, por sua vez, apesar
de pouco inventivo – principalmente por reiterar alguns lugares comuns da
literatura e da dramaturgia de horror –, adquire tônus especial pela condução
do elenco, que desempenha um bom trabalho físico e vocal.
Aliás, tão completo se revela o trabalho de voz dos atores de “Contos da Meia-
Noite”, que o público lamenta a dificuldade de compreensão de uma série de
trechos do espetáculo em razão das máscaras utilizadas pelos atores em
algumas cenas, que abafam sua projeção acústica e atrapalham o
entendimento do que se diz. Isso, como determinados dispositivos de
gestualidade, são aspectos que podem ser facilmente solucionados por parte
da direção/encenação – que sublinho, também, como aspecto positivo da peça.
Mesmo com alguns problemas de estrutura e execução, “Contos da Meia-
Noite” é uma peça agradável, com um elenco contundentemente
comprometido, que oferece luz à narratividade e desempenha, de modo
meritório, um texto essencialmente ficcional – na contramão da proliferação
desmedida de trabalhos autoficcionais na operação teatral contemporânea. Tal
virtude, por si só, equilibra “Contos da Meia-Noite”, destacadamente, na corda-
bamba da cena.
