por Lucas Costa
[@lukacsgenerico]
Em um estranho com congresso para solucionar os problemas climáticos e tentar salvar o mundo, dois agentes discutem a implementação de medidas e os limites do consumo humano.
“Congresso a dois”, peça de Luca Strabelli, tem ares de ficção científica pós apocalíptica e já carrega em si uma visão estética e política do autor ao colocar a carne como símbolo para o consumo cego e desenfreado do qual nos tornamos agentes e vítimas no mundo regido pelo Capital, isso para discutir o consumo de carne, agora literalmente, como um dos pilares da catástrofe climática. O palco assume a face ora de talk show, ora de ágora em que se decide o destino do mundo. Mais do que isso, assume faces de ruína em que os afetos e corpos das personagens circulam, lutam, dançam e se metamorfoseiam.
Os atores, Rafa Grandi e Gabriel Amaral, assumem missão corajosa e difícil mostrando sintonia e entrega em um texto longo e complexo que exige trabalho de corpo e trocas de figurino, dentre outros desafios. As escolhas de cenário e figurino, aliás, dão muito certo para criar experiência sensorial que une maquínico e erótico, com destaque para a bela sonoplastia criando trilhas hipnóticas com uso de sintetizadores, ruídos e glitches em um som futurista e ancestral a um só tempo.
“Congresso a dois” tem uma série de boas ideias estéticas e cumpre uma função política. No final, consegue mimetizar em sua linguagem um Tempo da Espera em que a vida se torna uma antessala na qual aguardamos eternamente pela solução ou pelo desastre final, causando um sincero desconforto e fazendo com o público saia se perguntando o motivo de tanta espera para mudar as coisas.
