por Ferdinando Martins
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A princípio, a peça causa estranhamento, aquela sensação que Freud descreveu como o infamiliar, de achar algo de conhecido no que é fora do comum. A explicação psicanalítica fala de irrupção do inconsciente, como se naquele acontecimento que não se encaixa no esperado algo de nós se revelasse. É essa a sensação provocada por Cenas para Tentar Entender um Mundo Caótico, apresentada no Satyrianas pela Cia Cênica Tenda, dramaturgia de Camila Damasceno e direção de Cristiano Alfer.
A estranheza inicial vem de um homem sentado em uma poltrona, com uma televisão no lugar de seu rosto. Essa figura fantasmagórica irá conduzir a trama e fará intervenções em diferentes momentos. O cenário remete a algo antigo e seguro, um mundo que entrará em fricção com a aridez dos temas abordados.
O texto de Camila Damasceno aceita que o mundo é mais rápido do que qualquer ficção que se queira escrever. Eugênio, esse autor-personagem que inaugura a peça tentando apresentar o século passado para uma plateia do presente, é quase uma alegoria do gesto de escrever hoje: você tenta organizar as palavras, dar forma à experiência, nomear o que acontece, mas o mundo não colabora. O mundo vem em manada.
A dramaturgia não se coloca como quem ilumina o caos, mas como quem caminha dentro dele, tateando. Existe algo muito honesto quando Eugênio admite sua inadequação, seu anacronismo, sua tentativa quase patética (e por isso tão humana) de ainda acreditar na palavra. E essa honestidade acaba abrindo espaço para o que é mais violento na peça: os vídeos, que não são metáforas, não são invenção, não são magia teatral — são realidade. São tão reais que quase desestabilizam a moldura da peça.
Violência e banalidade se tornam uma mesma coisa. Jean reclamando do mundo como quem reclama de um corte de cabelo mal feito; Bernardo flutuando no hedonismo do carnaval; Bigode entrando e saindo com segredos que jamais são ditos; Daisy carregando no corpo uma espécie de pressentimento de que algo muito grave está acontecendo — e ninguém está prestando atenção.
É nesse ponto que a peça atinge o nervo: o caos não vem mascarado de monstro. O caos chega disfarçado de vida comum. O rinoceronte não entra quebrando tudo — ele se infiltra, primeiro, nas conversas de bar. Nos pequenos absurdos. Na rotina de escritório. No churrasco suspeito. Nas palavras que não dizem nada, mas que sustentam tudo.
Damasceno faz um gesto próximo, sim, de Ionesco — mas não repete. Ela desloca. Ela pega a lógica do absurdo e a cola em um país onde o absurdo já é estrutura. E isso desestabiliza porque você percebe que não está diante de um espelho distorcido: está diante do reflexo direto.
No fim das contas, “Cenas para tentar entender um mundo caótico” é menos sobre entender e mais sobre assumir que o entendimento não dá conta. É uma peça que te coloca exatamente no lugar onde você está vivendo hoje: dentro de um mundo que não cabe mais dentro das explicações. E, ao invés de suavizar a experiência, ela a intensifica. Ela te mostra o caos sem filtro — e te oferece apenas o teatro como modo possível de ainda enfrentar a manada que atravessa tudo.
