por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]
Desde 1947, quando emergiu pela primeira vez, As Criadas já nasceu em fricção. Jean Genet, que nunca cultivou pudores, chamou o texto de “fracasso”, talvez porque sua escritura — tão mais interessada na vertigem do símbolo que na transparência da denúncia — exigia do público uma entrega que poucos estavam dispostos a oferecer. E, ainda assim, ali estava ele: fabricando uma fábula de violência, erotismo e servidão, inspirada no caso real das irmãs Papin, que já carregava em si o estigma da barbárie. Duas empregadas matam patroa e filha — e o teatro não voltou incólume desse acontecimento. A peça enfrentou censura, resistência, espanto.
No Brasil, não foi diferente. Tivemos diversas montagens, mas o fantasma do encontro entre Raul Cortez e José Celso no Oficina, em 1991, ainda pulsa: As Boas. Raul como Madame, Zé Celso e Marcelo Drummond como as criadas. Uma inversão de papéis de gênero que Genet teria aprovado com um sorriso oblíquo. A peça marcou o retorno do Teatro Oficina após o exílio de Zé Celso.
É nesse terreno instável que As Criadas — O delírio de Genet, criação e direção de Rodrigo Cordeiro, se situa. O que ele faz não é simplesmente atualizar Genet, mas escancarar suas fendas, torcer seus nervos, abrir novos caminhos de delírio para um texto que sempre se moveu melhor no excesso do que na ortodoxia. A encenação veste Genet com luzes contemporâneas sem desbotar sua escuridão — ao contrário, aprofunda-a.
Em cena, Kimberly Karoliny e Ubiratan Vieira: ela, de vestido; ele, nu. Madame e Claire atravessam uma espécie de alucinação compartilhada, mas aqui Claire aparece sozinha, sem Solange — irmã que é convocada pelo espelho, como quem chama um fantasma. O espaço oscila entre prisão e libertação, enquanto o corpo dos atores, tão disponível, toma para si o que há de ritual, de rito de passagem, de danação cotidiana no texto. Claire veste Madame. Madame é um homem nu. Há algo de perturbador nessa operação, uma espécie de revelação cruel sobre o que sustenta qualquer hierarquia: não a moral, mas a máscara.
O jogo central é a representação dentro da representação — teatro que se dobra sobre si não para afirmar um virtuosismo metalinguístico, mas para desmontar ficções de poder. A servidão é uma cena. A autoridade é uma cena. A violência que garante a ordem é também uma cena. Tudo se encena, tudo pode ruir.
E, no entanto, há ali uma pulsação queer que vai além do simples atravessamento de papéis. É um embaralhamento sensorial do desejo, da identidade, da obediência; uma espiral de sedução e repulsa em que amor e ódio se agarram um ao outro, sem saber quem conduz. Rodrigo entende que Genet nunca quis mimetizar o real — quis delirizá-lo. E é justamente nesse delírio, nesse território onde nada se fixa por muito tempo, que sua montagem encontra força, risco e beleza.
