por Ferdinando Martins
[@ferdinando.martins2]
TUA VOZ É ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar
a parede do mundo
ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA
Roberto Piva, Abra os olhos e diga ah
Meu envolvimento com “!! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !!” e minha proximidade intelectual e afetiva com o autor me levam a escrever uma crítica de forma pouco convencional. Fui um dos primeiros leitores do texto, tive conversas diárias com o Márcio Tito sobre a peça, sobre os ensaios, sobre as atuações. Divergi de certos procedimentos e critiquei, algumas vezes de um jeito rígido, outras entusiasmado, o trabalho dos artistas. Acompanhei alguns ensaios. Finalmente, vi sua primeira apresentação no Satyrianas, numa madrugada de sexta para sábado. Logo haverá outras. É provável que eu seja o produtor.
Dividi o texto em partes para organizar o pensamento. Na parte final, volto a falar sobre meu envolvimento com a peça.
PARTE 1: O título
O título escrito como “!! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !!” não é um mero recurso gráfico — ele já anuncia a atmosfera da peça antes mesmo da primeira fala. Esses dois sinais de exclamação duplicados, simetricamente colocados, funcionam como um enquadramento performativo: um grito moldado, um imperativo cercado, quase uma ordem policial travestida de brincadeira.
Há algo de agressivo e de farsesco nessa tipografia. Os “!!” não são só exclamações: são porretes visuais, pequenos choques elétricos que, de saída, preparam o espectador para a tensão moral do texto. Ao invés de um título limpo, minimalista, literário, temos uma frase que parece gritada de dentro de um chat, de um print, de um colapso online — como se viesse do mesmo universo onde o algoritmo empurra tragédias pessoais para o “Pesquisar” do Instagram.
A forma gráfica quase mimetiza uma sirene, abre e fecha como um par de portões que nos empurra para dentro de um jogo moral onde nada é discreto, tudo é exagerado, tudo transborda. A peça opera nesse regime — o excesso como método. Não dá pra dizer “abra os olhos” num sussurro. Aqui, a própria pontuação já faz o trabalho sujo: obriga o leitor a entrar de olhos abertos, forçados, como no consultório onde alguém realmente diria “diga ah”.
O título, assim, funciona como uma miniatura da dramaturgia: direto, inquieto, engraçado, violento e teatral até na escolha dos sinais. É quase um aviso de contaminação: quem entrar deve estar pronto para ser invadido.
PARTE 2: O subtítulo
No texto escrito, aparece o subtítulo “um espetáculo sobre a banalidade do mal” que opera como um contrapeso radical à forma gráfica do título. Se o “!! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !!” nos joga para dentro de um imperativo estridente, o subtítulo faz o movimento inverso: puxa o chão, assenta a peça num território conceitual, quase acadêmico — mas com uma torção que só faz sentido dentro do universo desses dois personagens.
Falar em banalidade do mal é, claro, evocar Hannah Arendt, mas aqui essa evocação não tem nada de solene. Pelo contrário: o subtítulo funciona como uma ironia antecipada. Ele já diz ao espectador que o que vai ser visto não é um crime espetacular, nem uma tragédia excepcional, mas a microcirculação do mal cotidiano, aquela que nasce no bar, no papo torto, na esperteza improvisada, na quebra minúscula da moral que todo mundo acha que é “só hoje”.
O impacto maior está no descompasso entre forma e conteúdo: um título escrachado, quase um meme, seguido de um subtítulo com densidade filosófica. Esse contraste produz uma terceira camada: o reconhecimento de que, no Brasil, a banalidade do mal não acontece em tribunais ou gabinetes — ela acontece na mesa de plástico, na cerveja quente, na piada de mau gosto que vira ideia, que vira possibilidade, que vira plano.
O subtítulo também funciona como um dispositivo de leitura: orienta o espectador a não tomar os personagens como caricaturas, mas como exemplares — homens comuns cujos raciocínios, empurrados pelo cansaço e pela precariedade, podem chegar a conclusões monstruosas sem jamais levantar a voz.
E há algo de profundamente teatral nessa autodeclaração: ao afirmar que é “um espetáculo sobre a banalidade do mal”, a peça assume que o palco não é um espelho do extraordinário, mas do ordinário levado ao limite. O mal não aparece com máscara — ele aparece com baseados, cervejas, risadas e aquele tipo de lógica que, se você ouvir rápido demais, até parece fazer sentido.
No fundo, o subtítulo é uma chave. Ele avisa: não espere vilões — espere humanos. E isso é muito pior.
PARTE 3: A peça
Há peças que se constroem a partir de um acontecimento, outras que se movem pelo conflito clássico, e há esse tipo de trabalho que se firma como um campo de pensamento sujo, torto, engraçado e profundamente cruel — exatamente o terreno em que !! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !! se instala. A peça não avança por ações, mas por deriva: dois caras largados numa mesa de bar, falando sem filtro, como quem pensa em voz alta, como quem se escuta pela primeira vez, como quem se perde dentro do próprio ímpeto verbal. O drama aqui não é um motor: é um ruído de fundo. O que move a cena é o dilema moral atravessado pela precariedade — e, como bem saberia Mário Bortolotto, entre os fodidos, a ética nunca é um sistema; é uma gambiarra.
O texto dispõe dois homens que, de tão soltos, de tão à deriva da própria consciência, acabam desnudando um país inteiro sem nunca mencionar o país. Um está anestesiado pela vida digital, pelo algoritmo que joga no colo o sofrimento de um desconhecido. O outro, meio hacker, meio malandro, meio profeta do caos, entende o mundo como uma engrenagem viciada que só pode ser corrigida por dentro da própria sujeira. Não há vilões nem heróis — só uma espécie de pulsão argumentativa que os empurra para o impossível: justificar intelectualmente um golpe em um terminal em estado de decomposição. É tão absurdo que dá a volta e toca uma realidade que a gente prefere fingir que não existe.
O que torna o texto particularmente potente é justamente essa coleção de frases que funcionam como relâmpagos — pequenos feitiços que reordenam o mundo por um segundo. “Fumando e bebendo igual puta na cadeia.” “Eles morrem de medo de pobre que não samba.” “Se macumba funcionasse, Guarulhos era Dubai.” “Extorsão, coação e um toque de teatro.” São imagens que não descrevem: elas instauram. Criam uma camada paralela, tão viva quanto torpe, onde a crueldade tem humor e o humor tem uma inteligência devastadora. É a banalidade do mal com acento paulista e vocabulário de WhatsApp.
O espetáculo, porém, não se contenta em ser apenas engraçado ou provocativo. Há algo mais fundo acontecendo: a fusão gradual das vozes dos dois homens, esse espelhamento inquietante, como se um contaminasse o outro — e não se sabe mais quem pensa o quê. É quase psicanalítico, mas no pior sentido possível: a fronteira entre eu e outro dissolvida num delírio de cerveja quente e moralidade falida. Quando eles começam a falar juntos, dizendo a mesma frase como se compartilhassem um córtex, a peça toca um ponto que ultrapassa o naturalismo e entra num território quase metafísico — a ética como infecção.
E é nesse gesto que o espetáculo encontra sua forma mais perturbadora: ele não discute o mal, ele o circula, o replica, o observa com calma de entomólogo. Nada ali é gratuito. A falta de pudor do Homem 1, a vulnerabilidade do Homem 2, a gargalhada, a náusea, o vômito final, essa quebra onde a fala se torna possessão — tudo compõe um desenho que desmonta a fantasia de que existe pureza possível entre os quebrados, entre os que nunca tiveram o luxo de escolher as próprias grandezas.
No fim, “!! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !!” é uma peça sobre como o cotidiano, esse território banal e aparentemente inofensivo, pode ser o palco dos raciocínios mais imorais — raciocínios que surgem não da maldade, mas da falta. Da fome. Da repetição infinita do “preciso me virar”. A peça acerta em cheio porque não julga. Ela só mostra. E, ao mostrar, coloca o espectador numa posição desconfortável: a de perceber que, sob a iluminação certa, qualquer um de nós poderia muito bem ser aquele que articula o golpe com clareza quase filosófica.
É um espetáculo que acerta no coração do dilema ético contemporâneo. Sem heroísmo, sem redenção, sem pedagogia. Só dois homens, um baseado, três cervejas, e o espelho moral rachado onde, a contragosto, a gente se reconhece.
PARTE 4: E eu com isso?
A resposta, no fundo, é simples e nada confortável: eu estou dentro. Porque não tem como olhar para esse texto, essa montagem e esse grupo auto-ironicamente chamado de Tragédia Pop, para esse mundo de dois homens tropeçando na própria ética, sem sentir que alguma coisa ali nos captura. Não porque sejamos iguais a eles — mas porque reconhecemos a engrenagem, o desvio minúsculo, a tentação do raciocínio torto que se justifica sozinho. A banalidade do mal, afinal, nunca é sobre monstros: é sobre gente. É sobre nós.
E meu envolvimento com essa peça não começou no teatro, mas numa mensagem no meio da Bienal Sesc de Dança. O Marcio Tito me enviou o texto como quem lança um fósforo numa poça de gasolina. Disse que o título vinha de um livro do Roberto Piva. E ali já havia um sinal: o excesso, o êxtase, a rua, o corpo — tudo latejando no nome antes mesmo do enredo. Fiquei impressionado com a velocidade com que ele tinha escrito, um surto criativo que atravessou a madrugada. Depois percebi que Márcio funciona assim mesmo, nesse registro de vulcão: as ideias brotam e vicejam nele como se tivessem vida própria, com uma urgência que beira o espanto.
Acompanhei o processo de perto, quase diariamente — os altos, os baixos, as hesitações, as certezas, o texto virando palco com a Tragédia Pop. Havia algo de comovente ali, uma fome de teatro que eu reconheço de longe: esse desejo feroz de fazer, de elaborar o mundo pela ficção, de testar a ética através da cena, como quem acende uma luz dentro da própria sombra.
Na estreia, no Festival Satyrianas, tudo isso se condensou de forma avassaladora. E foi estranho perceber que, no meio do riso, da imoralidade cínica e da violência argumentativa dos personagens, o texto me puxava para Dostoiévski — não pelo peso trágico, mas pelo mecanismo íntimo onde culpa, desejo e racionalização se embaralham até formar um labirinto ético impossível. Entre os eflúvios de Crime e Castigo e a vibração de Roberto Piva, eu via o Márcio: sua generosidade, essa confiança radical no humano, o prazer sem medo diante dos precipícios, a delicadeza com que ele passeia pelos cantos escuros do mundo — reais ou metafóricos.
Por isso, a pergunta volta: e eu com isso? Eu com isso estou implicado. Estou atravessado. Estou acompanhando um artista que não recua do feio, que não suaviza o que é duro, que não teme o ridículo nem a crueldade — porque sabe que é ali, no ponto de atrito, que o teatro acontece de verdade.
“!! ABRA OS OLHOS E DIGA AH !!” nasceu num quarto de hotel. Eu estava no apartamento ao lado. Eu e o Márcio falávamos um com o outro o tempo todo, atravessando as paredes como se estivéssemos dividindo o mesmo espaço mental: ele criando febrilmente, eu acompanhando o nascimento do texto quase em tempo real. Saíamos todas as noites para beber num bar chamado Borracharia, esse bar meio boteco, meio poético, onde a noite parecia nunca terminar e a conversa nunca esgotava; víamos o dia nascer com aquela sensação de que ainda havia algo por dizer, e então íamos tomar café da manhã como dois sobreviventes. É bonito pensar que o espetáculo carrega essas madrugadas dentro dele — e que eu estava lá, testemunhando o texto enquanto ele ainda inventava a si mesmo.
Foi lindo. Tem sido lindo. E, se existe banalidade do mal, existe também essa outra banalidade — a da criação que insiste, que irrompe, que te arrasta com ela. E eu, com tudo isso, sigo olhando, pensando, e, sobretudo, me deixando afetar.
