Abismo

por Douglas Ricci
[@blogaus]

A lambança que a relação entre religião, política e crime organizado fazem é o tema central de “Abismo”, peça que, com narrativa ágil e bons atores, dá um tiro certeiro em uma das discussões mais importantes do país: a comercialização da fé e sua promíscua relação com a política e o crime organizado.

O trabalho carrega uma elegância na encenação que me interessa bastante, com poucos elementos cênicos, figurinos precisos, em uma paleta de cores que parecem uma fotografia em preto e branco. A materialidade farinha, usada já no início da encenação, é uma escolha bastante certeira como metáfora da inescrupulosa relação entre igrejas pentecostais e o crime organizado.

A peça também trata de relações de poder: aliás, a premissa “manda quem pode, obedece quem tem juízo” parece ser a mensagem irônica que a dramaturgia deixa ao colocar as coisas de forma trágica, em termos de vida real. O trabalho dos atores caminha com firmeza na direção de construir essa lógica de que se não posso ir contra eles, vou com eles, fazendo deste um dos trabalhos mais interessantes que vi na edição do Festival deste ano.

______________________________________________________________________________________________________________

por Matheus Barbuio
[@matheus_barbuio]

A peça te apresenta somente simples arquétipos, nenhum personagem bem desenvolvido psicologicamente, mas simples arquétipos, e na verdade isso já basta. Esses arquétipos já são tão presentes na realidade brasileira que eles não precisam ser nada além disso em cena para nos parecerem reais de fato e nos levar a refletir sobre o abismo em que vivemos no nosso país.

O primeiro a falar é o homem de negócios, branco e herdeiro. Ele se aproxima de uma figura da tragédia clássica, seu destino já foi traçado antes mesmo dele nascer pela trajetória do sangue da sua família durante a história, mas ao contrário dos heróis trágicos gregos, ele aceita seu destino de bom grado e está muito satisfeito com ele. As outras duas figuras, que são apresentadas em cadeia, são consequências dele, de modo voluntário ou não, tentando imitá-lo ou não.

Assim como o arquétipo em si, tudo na montagem é muito simples: a interpretação, o figurino, a cenografia. Isso parece bastar no que a peça quer colocar em cena, não existe o intuito de criar empatia ou qualquer coisa grandiosa em cena, somente apresentar uma realidade e deixar que o público lide com ela.