por Luê Stracia
[@hastaluego.br]
Uma leitura certeira do texto de García Lorca, escrito ainda sob os olhos do
regime franquista, mas com grandes pitadas de Brasil. O início é um jogo
divertidíssimo, no qual o público escolhe quem formará o elenco principal – e
veja, todos participam, afinal – mas a brincadeira está em subverter a lógica de
gênero – personagens femininas interpretadas por atores masculinos e vice-
versa. Aí já está uma dica sobre o texto: quais costumes e papéis de gênero
ainda regiam uma Espanha do século XX assolada pela Guerra Civil?
Bernarda Alba, matriarca da família, encontra em sua recém-viuvez um motivo
para enclausurar ainda mais suas filhas Angústias, Madalena, Martírio, Amélia
e Adela, que vivem sobre a ronda de sua austeridade. Entre as cenas, há
muitos traços de preconceito, vingança, fanatismo e machismo – que
denunciam o arcaico código social de um país quebrado em si (ainda que
muitas referências tenham sido feitas ao Brasil, como o debate da escala 6×1).
Nesse contexto, Bernarda – com seu humor ácido – se vê diante de Pepe
Romano, o homem que se casaria com a sua filha mais velha e que se
apaixonou pela mais nova. Dessa trama, caem as máscaras e, claro, a mãe faz
de tudo para manter o status quo, ainda que precise sacrificar algumas coisas.
Entre a belíssima produção do espetáculo, iluminação, sonoplastia, cenário,
maquiagem e figurinos, se destacou também a musicalidade da peça. Todos
que atuaram em algum momento tocaram instrumentos, e o elemento
percussivo (das castanholas às toras de madeira) fazia borbulhar a beleza da
cultura Andaluz, das vilas rurais que guardam segredos que se ouvem nos
tamancos e enxadas.
Atuações e interpretações notáveis, um show de talento e propriedade sobre o
texto original.
